Educação

O que os estudantes pensam sobre o ensino

Com o acesso à internet, cresceu a sensação de que a escola está cada dia mais desconectada da realidade

Por: Maurício Xavier (colaboraram Flora Monteiro e Nathalia Zaccaro) - Atualizado em

Capa 2255 - Colégio Anhanguera
Sala de uma das unidades do Colégio Anhanguera: estudantes de escolas particulares e públicas pedem mudanças no ensino (Foto: Kiko Ferrite)
Na cena de abertura do clássico juvenil “Curtindo a Vida Adoidado”, de 1986, o anti-herói Ferris Bueller dispara: “Hoje eu tenho uma prova sobre socialismo europeu. Tá, e daí? Eu não sou europeu nem planejo ser, então quem se importa com isso?”. Passaram-se quase trinta anos e os adolescentes continuam reclamando do que é ensinado: a diferença está no motivo do mau humor. A rebeldia pura e simples deu lugar à preocupação de aprender algo que seja relevante em um mundo cada vez mais competitivo. A sensação que eles têm de que a escola está cada dia mais desconectada com o mundo real ficou ainda maior com o acesso à internet. Com isso, o professor deixou de ser a única fonte de informações e os estudantes questionam muito mais o conteúdo das matérias. “O ensino deveria ser todo diferente, com assuntos mais úteis para o nosso dia a dia”, afirmou um aluno do 3º ano do ensino médio de uma escola particular que participou dos debates de VEJA SÃO PAULO. + As opiniões de estudantes paulistanos sobre a realidade da escola + Escolas fazem reajustes de até 23% nas mensalidades de 2012 + Euro-Pós busca atrair alunos para estudar no exterior Segundo especialistas, os estudantes têm razão em suas queixas sobre o modelo atual de aprendizado. “Nosso currículo é inútil, temos uma jornada imensa e uma tradição de ensinar coisa difícil: um livro de biologia é quase uma tese de doutorado”, afirma o economista Claudio de Moura Castro, especialista em educação e articulista de VEJA. As escolas, por seu lado, se defendem apontando o dedo para as faculdades. “A obrigação de preparar para o vestibular é uma amarra que empobrece o aprendizado”, opina o diretor do Colégio Vértice, Adilson Garcia.

É grande a sede dos jovens de hoje por informação. Em 2010, a Secretaria Municipal de Educação fez um levantamento no ensino fundamental sobre os motivos que levam os alunos a gostar da escola: 78% afirmaram que o mais atraente é o que aprendem. Alguns colégios buscam alternativas para motivá-los. “Duas vezes por ano, mudamos os horários e a divisão de turmas por faixa etária. Em determinados casos, o aluno se torna o responsável por trazer o conteúdo”, diz o diretor da unidade Cerro Corá do Colégio Oswald de Andrade, Harlei Florentino. Nesse processo de renovação, um desafio importante será recuperar o prestígio dos professores. Na pesquisa de VEJA SÃO PAULO, 54% dos entrevistados declararam que não abraçariam a carreira do magistério em hipótese alguma. “Existe um desgaste, e um exemplo é essa mania de chamar o professor de tio, que descaracteriza o profissional”, afirma o diretor da Escola Técnica Estadual de São Paulo, Carlos Augusto de Maio.   O que eles dizem “Eu nunca teria coragem de ser professor; nenhum dos alunos respeita o serviço dele.”3º ano do ensino médio, escola pública “Eu amava estudar, mas me decepcionei tanto com a escola que hoje só faço o que é preciso para passar de ano.”3º ano do ensino médio, escola pública “Minha mãe nunca foi a uma reunião na escola. É uma pena, porque, se eu fosse cobrada, renderia mais.”3º ano do ensino médio, escola pública “A aula de artes deveria ser pegar um quadro e desenhar, e não ficar decorando nome de pintor.”9º ano do ensino fundamental, escola particular “Tem aula que é uma várzea, o professor simplesmente não dá a matéria.” 3º ano do ensino médio, escola particular “Sou um lixo em matemática, não entra na minha cabeça, sou obrigada a estudar e nunca vou usar.” 3º ano do ensino médio, escola particular

Fonte: VEJA SÃO PAULO