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Conheça Enivo, um dos grafiteiros mais atuantes da cidade

Artista fala em entrevista sobre a infância no Grajaú e o mural apagado por estudantes na Paulista. Confira fotos de seus trabalhos

Por: Luisa Coelho - Atualizado em

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Certamente você já viu algum dos personagens criados pelo grafiteiro Enivo nas paredes de São Paulo. Formado em artes plásticas, o paulistano de 28 anos, natural do Grajaú, na Zona Sul, descobriu a cidade através da arte ainda na infância.

Em 1998, viu os primeiros grafites surgirem em seu bairro: os traços de Jerry Batista, hoje seu amigo, e Alexandre Niggaz, que morreu afogado na Represa Billings em 2003, aos 21 anos. Os trabalhos o inspiraram a começar a própria carreira, primeiro pintando a rua de casa, depois as vias vizinhas. O que era brincadeira de menino virou parte fundamental de sua vida. Hoje, além de se dividir entre telas e paredes, ele é um dos sócios de uma galeria de arte urbana na Vila Madalena, a A7ma.

Confira a seguir a conversa do artista com a VEJA SÃO PAULO.

Você foi preso no início do ano ao ser flagrado pintando no centro. Como foi esse episódio?

Fui pego por câmeras de segurança em um lugar deteriorado, com gente fumando crack e criança pedindo dinheiro. Fui abordado pela polícia, apreenderam meu material fotográfico e aparelhos celulares de pessoas que estavam acompanhando meu trabalho. A cena foi exibida na televisão como se eu fosse um marginal, um vilão. Já consegui documentos de liberação, inclusive autorização do proprietário do lugar onde eu pintava, mas ainda não tenho uma resposta das autoridades.

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Mural feito em parceria com a artista Marina Zumi, na Rua Augusta (Foto: Enivo)

Recentemente um mural no acesso da Avenida Paulista foi apagado por estudantes de medicina da USP. Como você vê essa briga por espaços?

Esses estudantes fazem isso há anos, mas acho bobo usar o espaço para divulgar uma festa, enquanto estão rolando tantas coisas na cidade em questão de política e meio ambiente. Faz mais de dez anos que pinto ali e já tive meu trabalho apagado duas ou três vezes por causa do mesmo evento. Desta vez eu cheguei um pouco mais tarde, o pessoal já tava trabalhando na produção do mural, e eu acabei pintando uma pilastra cinza ao lado.

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Pode comentar sobre a "criminalização da arte"?

A arte de rua está com tudo em São Paulo. A prefeitura está aceitando esse momento, e a polícia está ciente do que é o grafite. Mesmo assim, quando ocorre uma denúncia, tem abordagem. Nesta semana, eu estava pintando na Avenida 23 de Maio em horário de pico e uma pessoa passou e gritou, me xingando. Eu estava concentrado, é uma avenida perigosa. Com o susto, fui virar para ver o que estava acontecendo e torci meu joelho. A pessoa vê a ação, com o spray na mão e não imagina o trabalho final. Depois eles vão passar e achar o desenho legal, mas muita gente não entende o processo.

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Empena de prédio no Conjunto Habitacional Parque do Gato, no Bom Retiro (Foto: Enivo)

As pessoas param a fim de conversar ou questionar?

Geralmente as que xingam passam de carro, elas têm medo de encarar a cidade. As pessoas que passam na rua dialogam, elogiam. Certo dia, uma pessoa chutou meus materiais, outra correu atrás de mim com um pau. Mas também tem o outro lado. Muitas vezes estou pintando uma porta e curiosos trazem um prato de comida, um suco.

Quem são os personagens que você retrata?

São os filhos da rua, figuras periféricas que lembram o Niggaz, uma grande influência de toda a Zona Sul. É uma homenagem a ele. São suburbanos, os olhos da cidade. Uma das minhas pesquisas remete à minha infância no Grajaú.

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Arte feita no Conjunto Habitacional Parque do Gato, no Bom Retiro (Foto: Enivo)

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Como você se divide entreo trabalho nas ruas e na galeria?

Pinto telas por uma necessidade de ter um trabalho mais minucioso, duradouro. É algo que vai ficar por gerações, enquanto a rua é efêmera. Uma coisa é combustível para a outra. Eu pinto aqui no ateliê, acumulo bastante energia e saio para a rua a fim de soltar o traço e brincar de video game na vida real. São atividades paralelas.

O que você gosta de fazer além de pintar?

Difícil, sou meio nerd. No tempo vago, visito a minha mãe e minha avó. Depois de dois AVCs, minha avó virou pintora. Parou de andar e falar, perdeu os movimentos do lado direito do corpo, mas pintou centenas de quadros. Seu nome artístico é Nena Madalena, ela fala Nena Nena. Normalmente as pessoas são influenciadas pelos avós e pais. No meu caso ocorreu o contrário, influenciei a minha avó e ela tem um trabalho muito lindo.

Fonte: VEJA SÃO PAULO