Memória

Enchentes: problema de São Paulo há mais de um século

Não fossem os veículos e os extintos outdoors, que denunciam a idade das fotos que ilustram esta reportagem, daria para jurar que elas foram feitas neste verão

Por: Mariana Barros - Atualizado em

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É claro que este verão foi para lá de atípico. Só em janeiro, choveu por aqui o dobro da média histórica, e o resultado foram enchentes constantes. Mas pontos como a Marginal Tietê, o Túnel do Anhangabaú, no centro, e o Jardim Pantanal, na Zona Leste, são retratados debaixo d’água desde pelo menos a década de 60. E o drama é ainda mais antigo. Segundo Agostinho Ogura, geólogo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), a área onde está São Paulo sempre foi suscetível às cheias, mesmo antes do surgimento da cidade. “Com o desenvolvimento urbano, a questão ficou mais complexa, já que se ocuparam muitos trechos alagáveis”, afirma.

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A região da antiga Várzea do Carmo, no centro, onde atualmente está o Terminal Parque Dom Pedro II, sofre com as chuvas há mais de um século. Em 1892, o artista plástico Benedito Calixto (1853-1927) pintou Inundação da Várzea do Carmo, que integra o acervo do Museu do Ipiranga e mostra o estrago causado pelo transbordamento do Rio Tamanduateí. A mesma área foi retratada em 1918 por Aurélio Becherini (1879-1939), primeiro fotojornalista da imprensa paulistana, cuja trajetória deu origem ao livro que leva o nome do artista, publicado no ano passado pela editora Cosac Naify. Atualmente, a água ainda se acumula no local quando chove. Especialistas apontam a falta de planejamento urbano como o principal motivo para a perpetuação dos alagamentos. “As ações dos governos não levam em conta as avaliações históricas e os paradoxos da cidade”, diz a geógrafa Odette Seabra, professora livre-docente da USP, com doutorado sobre o assunto. “Falta conhecimento.” O descompasso entre o crescimento da metrópole e os investimentos em drenagem chegou a tal ponto que hoje se tornou financeiramente inviável realizar um projeto que erradique o problema. “Agora, só é possível controlar a expansão urbana”, conta Ogura.

O Plano Diretor, conjunto de regras que poderia ajudar a organizar esse crescimento, ainda esta parado na Câmara Municipal. Aprovado em 2002, ele deveria ter sido revisto em 2007. Os vereadores, por enquanto, pretendem enfrentar a questão apenas de maneira pontual. Instauraram uma CPI para investigar se houve falhas nos serviços municipais, como varrição, limpeza de piscinões e coleta de lixo. “Vamos verificar os contratos de manutenção da cidade”, diz o vereador Francisco Chagas (PT), proponente e membro da comissão, que deve iniciar os trabalhos em abril. Para a secretária estadual de Saneamento e Energia, Dilma Pena, o controle de enchentes passa por uma fiscalização mais rigorosa dos locais que não deveriam estar ocupados, por serem alagáveis. Ela, no entanto, não descarta a manutenção urbana como parte da solução. A pasta já gastou, desde o início do ano passado, mais de 10 milhões de reais em equipamentos de limpeza para municípios em áreas de mananciais da região metropolitana. Também fazem parte das ações a instalação de piscinões em espaços indicados pelas prefeituras e a criação de parques em pontos invadidos por moradias — como o Parque Várzeas do Tietê, na região do Jardim Pantanal, na Zona Leste da capital. “Existem inundações porque construímos em fundos de vale e várzeas, cuja vocação é o lazer e a paisagem”, afirma Dilma. Ou seja, estas imagens, pelo jeito, ainda vão se repetir por muito tempo.

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO