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Empresários Djalma Luiz Rodrigues e Marlene Schmidt lideram as vendas de aparelhos neonatais no mercado nacional

Com 10 000 aparelhos exportados anualmente para noventa países e vendidos aos principais hospitais do país, marido e mulher fazem fortuna produzindo incubadoras e berços para recém-nascidos

Por: Fabio Brisolla - Atualizado em

O funcionário público Ferhat Tawil tinha motivos para estar feliz e assustado naquele 18 de abril de 2007. Sua mulher, Souhila, dera à luz sete filhos. Um menino morreu antes de nascer e seis meninas sobreviveram na UTI de um hospital público em Argel, capital da Argélia. Do outro lado do Atlântico, num escritório no bairro de Santana, na Zona Norte, a foto do pai na maternidade divulgada pela internet por agências internacionais de notícias teve um significado especial para os empresários Djalma Luiz Rodrigues, 68 anos, e Marlene Schmidt, 67. Ao observarem a imagem, eles perceberam que Tawil aparecia rezando com as mãos para o alto cercado pelas filhas, cada uma delas dentro de uma incubadora da marca brasileira Fanem. Casados há 47 anos, Rodrigues e Marlene são os donos da empresa, que atualmente fornece aparelhos neonatais a noventa países, além de liderar as vendas no mercado nacional. Entre os clientes paulistanos estão os hospitais São Luiz, Albert Einstein, Pro Matre Paulista e Santa Joana. As quinze principais maternidades privadas e públicas da cidade reúnem 454 incubadoras, sendo 448 da marca Fanem (98,6%). Neste ano, segundo cálculos do casal, esse domínio significará um faturamento de 73 milhões de reais.

Obviamente, o que faz a diferença na recuperação de um paciente ainda são o médico e sua equipe. Mas, no caso dos prematuros, a incubadora surge como uma poderosa ferramenta. Com o equipamento, o bebê fica isolado num ambiente com temperatura e umidade controladas, o que impede a gradativa perda de calor corporal e o conseqüente agravamento de seu quadro clínico. "A temperatura lá dentro costuma ficar em torno de 36 graus", explica Luiz Carlos Bueno Ferreira, diretor da área de neonatologia da rede São Luiz. "E não basta ter calor, é preciso ter umidade para que não ocorram problemas respiratórios." Para equipar uma UTI, os hospitais pagam entre 6 000 e 21 000 reais por incubadora da marca. O preço sobe de acordo com acessórios adicionais, como a instalação de uma balança sob o leito ou monitores cardíacos. Na unidade top de linha, batizada de Vision Advanced, um painel de LCD atualiza todas as informações sobre o bebê, como temperatura corporal, saturação de oxigênio, peso e batimentos cardíacos. "A tecnologia das incubadoras melhorou a sobrevida dos recém-nascidos", diz Alice Deutsch, coordenadora médica da unidade neonatal do Hospital Albert Einstein.

Esse tipo de tratamento ganhou notoriedade quando o obstetra francês Stéphane Tarnier desenvolveu, em 1880, um protótipo para a Maternidade Port-Royal, em Paris. Numa visita ao zoológico, ele teve a idéia de criar a máquina ao observar uma chocadeira dentro de um galinheiro. A partir daí, vários formatos surgiram e, entre eles, o brasileiro criado por Walter Schmidt, em 1954, para a Fábrica de Aparelhos Nacionais de Eletro Medicina, nome reduzido à sigla Fanem alguns anos depois. Inaugurada em 1924 pelo imigrante alemão Arthur Schmidt, a empresa iniciou suas atividades produzindo estufas para laboratórios e passou a comercializar produtos neonatais na administração de seu filho, Walter.

No endereço da antiga fábrica em Santana funciona atualmente o escritório da empresa, enquanto quinze incubadoras são produzidas diariamente no galpão de 12 000 metros quadrados em Cumbica, no município de Guarulhos, nas imediações do aeroporto internacional. Por ano, a Fanem confecciona 10 000 unidades de incubadoras, berços e aparelhos de fototerapia. Em um setor, adesivos com o endereço de cada remessa, colados em dezenas de caixas de papelão lacradas, sinalizam o alcance da marca: Venezuela, Peru, Emirados Árabes, Egito, Itália, Turquia... Djalma Rodrigues vai apontando para cada uma delas com um sorriso de satisfação. "Quase 25% de nossas exportações vão para o Oriente Médio", conta. Responsável pela área de produção da Fanem, Rodrigues foi quem transformou a empresa da família Schmidt num negócio lucrativo. Ao se casar com Marlene, a representante da terceira geração, o genro assumiu uma vaga na firma do sogro e alavancou as vendas.

Para modernizar a produção, no início da década de 70 Rodrigues associou-se a um grande fabricante americano de incubadoras. Em pouco tempo, a Fanem dominou a tecnologia e passou a desenvolver sua própria linha de produtos. Após a morte de Walter Schmidt, em 1990, Marlene assumiu o comando da empresa ao lado do marido. Sob a gestão do casal neonatal, a tecnologia brasileira se espalhou pelo mundo. "Num hospital indiano, encontramos recém-nascidos embrulhados em jornal", conta Rodrigues. "Nesse tipo de caso, o nosso equipamento faz uma grande diferença." Em território nacional, os aparelhos instalados em hospitais públicos e privados protagonizaram alguns casos marcantes, como o do menino Arthur. Ele veio ao mundo com 385 gramas, em 2006, na clínica Perinatal, no Rio de Janeiro. Ao chegar à UTI, pesava 282 gramas e passou a ser reconhecido como o menor bebê nascido no Brasil. "Chorei ao saber que ele tinha sobrevivido com a ajuda do nosso produto", lembra Marlene. A secretária Samia Mostafa também se emociona ao falar do nascimento de sua filha, Sophia, há duas semanas, na unidade do Tatuapé do hospital São Luiz, um parto inesperado após sete meses de gestação. Atualmente com 1,2 quilo, a menina permanecerá na incubadora até atingir o peso suficiente para receber alta. "Passo o dia inteiro ao lado da minha filha na UTI", conta Samia. "Cada dia é uma nova alegria, ela melhora um pouco." Mais uma vez, Rodrigues e Marlene comemoram.

Fonte: VEJA SÃO PAULO