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Empresário já encontrou 17 000 pessoas que viviam afastadas dos parentes

Inspirado pela própria história - ele não tinha contato com a filha que mora em Israel -, Walter Peceniski criou o site GoodAngels, especializado em reencontros

Por: Nataly Costa

Walter Peceniski
O "caça-desaparecidos": Peceniski ganha a vida levando as histórias para o rádio e a TV (Foto: Fernando Moraes)

Em agosto de 2003, o empresário Walter Peceniski recebeu um telefonema inusitado. Do outro lado da linha, o produtor de uma rádio israelense perguntava se ele conhecia a adolescente Liat, então com 14 anos. “É minha filha, que eu não via desde que ela tinha 4 meses de idade”, conta. O paulistano fora casado em Israel e, após a separação, perdeu o contato com a família. A satisfação com a notícia surpreendente o levou a abandonar a carreira de consultor jurídico naquele mesmo ano e criar a ONG GoodAngels, especializada em conectar parentes afastados. Em onze anos de atuação, diz ter promovido cerca de 17 000 reencontros. Sem cobrar pelo serviço, oferecido em um site na internet, o profissional ganha a vida levando esses episódios a programas de rádio e televisão — tem contratos para inserções no SBT e na Rádio Globo.

 

A imensa maioria dos clientes que atende traz uma história bem semelhante à vivida por ele próprio: filhas em busca do pai sumido. “Também aparecem pessoas procurando irmãos ou amores do passado”, diz. Há duas semanas, surgiu o caso mais surreal de sua trajetória, que teve repercussão na imprensa: uma mulher do interior de São Paulo descobriu ser casada com o próprio irmão após conhecer a mãe (veja mais detalhes deste e de outros casos abaixo).

Além de rechaçar a alcunha de “detetive”, Peceniski evita dar detalhes sobre seu método de trabalho. Mas não há nadade muito sensacional, é basicamente burocrático. Ele dispõe de um enorme arquivo com dados socioeconômicos de cidadãos brasileiros que inclui nome completo, data de nascimento e endereço fixo. O banco é semelhante ao usado por empresas de cobrança e análise de crédito, o tipo de firma do qual era proprietário até a década passada. Um analista de sistemas o ajudou a formatar as informaçõese facilitar a busca pelos desaparecidos. A tentativa de reunião, no entanto, nem sempre tem final feliz. “Às vezes, a pessoa pede para permanecer em sigilo, e eu respeito.” Na era das redes sociais, há ainda o risco iminente de seu trabalho tornar-se obsoleto. “Dizem que meu maior concorrente é o Facebook.”

Elo perdido

Alguns dos casos “resolvidos” pelo GoodAngels

› Uma dona de casa de Palmital (SP) pediu ajuda para reencontrar a mãe, que não via fazia quarenta anos. Ao vivo na Rádio Globo, descobriu que estava casada como próprio irmão, também abandonado pela mesma mulher

› Internada no Hospital Dom Pedro, no Jaçanã, fazia quinze anos, Xista Gomes não via ninguém da família desde então. No ano passado, com a ajuda da entidade, foi contatada por uma irmã de Pernambuco

› Com a morte do pai, em 2012, a enfermeira Isabel Valente resolveu procurar o irmão Rony, de quem estava afastada havia 22 anos. Encontrou-o morando no Rio de Janeiro com uma nova família e restabeleceu o vínculo

Fonte: VEJA SÃO PAULO