Medicina

Livro reconta a história do Hospital Emilio Ribas, fundado em 1880

Na época, estabelecimento ficava nos limites da cidade, onde hoje fica a Avenida Rebouças

Por: Mariana Barros - Atualizado em

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Fila para tratar meningite, em 1974: combatendo epidemias (Foto: Reprodução)

Os jardins do Instituto de Infectologia Emilio Ribas são muito mais do que um recurso paisagístico. Fazem parte de uma arquitetura estrategicamente pensada para isolar doentes e evitar contaminações. Seguindo essa lógica, o local escolhido para sua construção foi um terreno mais afastado da cidade, próximo à Estrada dos Pinheiros, numa colina em que os ventos raramente sopravam em direção ao centro: em plena Avenida Doutor Arnaldo. Em 1880, porém, a via ainda nem existia, e a tal estrada, hoje chamada Avenida Rebouças, representava os limites a oeste da capital. A finalidade do prédio ali erguido era tratar dos paulistanos contaminados pela varíola, o que lhe rendeu o nome de Lazareto dos Variolosos.

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Enfermaria montada no Club Athletico Paulistano, em 1918: combate à gripe espanhola (Foto: Reprodução)

A trajetória do instituto, tão misturada à da cidade, é contada em “Do Lazareto dos Variolosos ao Instituto de Infectologia Emilio Ribas — 130 Anos de História da Saúde Pública no Brasil” (Editora Narrativa Um, 192 págs., 70 reais). Coordenada por Fátima Aparecida Chiuratto e escrita pelos historiadores Roney e Monica Cytrynowicz, a obra se inicia com o debate na Câmara Municipal sobre a necessidade de erguer um local que abrigasse os acometidos por uma epidemia de varíola que acabara de eclodir. Mortes provocadas por um surto anterior da doença já haviam motivado a construção às pressas do Cemitério da Consolação, o primeiro da capital. “É empolgante o registro de uma instituição criada a partir de uma discussão política sobre isolar pacientes e que hoje se tornou referência nacional”, afirma o infectologista David Uip, diretor do instituto e autor do prefácio.

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Vacinação contra meningite, em 1975: 11 milhões imunizados em quatro dias (Foto: Reprodução)

A obra reconta os esforços para combater uma série de males que assolaram a cidade desde o século XIX, como difteria, febre tifoide, peste bubônica, gripe espanhola, febre amarela e meningite, até a década de 80, com o aparecimento da aids. O Hospital de Isolamento, como passou a ser chamado no fim do século XIX, ganhou o nome de Emilio Ribas em 1932, em homenagem ao cientista médico que descobrira ser o mosquito o vetor de transmissão da febre amarela, o que conferiu a ele projeção internacional. O local foi ainda pioneiro na contratação de enfermeiras.

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Equipe em frente ao Hospital de Isolamento: enfermeiras confundidas com prostitutas (Foto: Reprodução)

Na década de 50, com as alunas da Escola de Enfermagem da USP se graduando, o atendimento tido como modelo se profissionalizou ainda mais. Ao voltarem do trabalho de madrugada, porém, elas eram confundidas com prostitutas. Pelo senso comum da época, essa era a única explicação possível para uma moça andar pela rua naquele horário. “A cidade se expandiu por ter um serviço de saúde organizado, o que atraiu imigrantes e desenvolvimento”, diz Roney Cytrynowicz. “O instituto abriu um novo capítulo na história de São Paulo, em que ela se torna uma metrópole de fato.”

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O infectologista David Uip: “A instituição é um centro de referência nacional” (Foto: Fernando Moraes)

Fonte: VEJA SÃO PAULO