Música

Rapper Emicida também se destaca nos negócios

Com uma sólida carreira independente e o primeiro disco recém-lançado, paulistano inova como empresário

Por: Carol Pascoal - Atualizado em

Emicida
O músico, na sede de sua empresa, em um sobrado em Santana: vinte funcionários (Foto: Lucas Lima)

Nascido no Jardim Fontalis, bairro pobre da Zona Norte, o rapper Emicida coleciona façanhas para um artista independente de 28 anos. Sem o suporte de gravadoras, apesar de ter recebido propostas de várias, lançou dois EPs (como são chamados os CDs com menor número de faixas), duas mixtapes, oito clipes bem elaborados, tocou em alguns dos festivais mais respeitados do mundo, entre eles o californiano Coachella e o suíço Montreux Jazz Festival, e ainda emplacou a música Zoião na trilha sonora de Sangue Bom, a atual novela das 7 da Rede Globo.

+ Saiba os principais shows que ocorrem essa semana

Na última quarta (21), após dez anos de carreira, saiu seu primeiro disco, O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui. Com produção de Felipe Vassão e tiragem de 10 000 cópias, o trabalho flerta com outros gêneros além do rap, como o samba, o funk e o rock. “Esse álbum servirá como um cartão de visita para quem ainda não me conhece”, diz.

A base para essa estreia financiada pelo próprio bolso só foi possível devido ao sucesso do Laboratório Fantasma, empresa criada por ele em 2009. Misto de produtora, selo e grife, o negócio funciona em um sobrado na Avenida Cruzeiro do Sul, em Santana, onde trabalham vinte funcionários. A marca vende artigos como bonés, camisetas, canecas, acessórios e discos de outros artistas, entre eles o rapper Ogi e o grupo Mão de Oito.

+ Artistas brasileiros investem em lojinhas virtuais para superfãs

Emicida
O artista em ação: cerca de 2 500 pessoas por show (Foto: Enio César)

Na loja on-line (www.laboratoriofantasma.com) é possível encontrar desde buttons por 3 reais a moletons de 120 reais. O faturamento mensal cresceu de 1 500 reais em 2009 para 80 000 no ano passado. Um sucesso que possibilitou a diminuição da quantidade de shows rea lizados por semana, de quatro para dois. “A maioria dos artistas sem gravadora precisa recorrer a subsídios estatais ou incentivos privados para pagar as contas, mas o Emicida consegue ser autossustentável graças à empresa”, diz o produtor Daniel Ganjaman.

“Trata-se da plataforma mais bem-sucedida da cena independente atual.” Apesar de receber pedidos de dezenas de músicos, o selo gerencia a carreira de apenas um, o rapper Rael, que neste ano firmou um contrato até 2016 e em março lançou o elogiado álbum Ainda Bem que Eu Segui as Batidas do Meu Coração. “Eles agendam apresentações, lançam produtos e cuidam da minha relação com a imprensa”, explica. “Sem esse suporte, provavelmente eu não teria conseguido a projeção que tenho hoje.”

Irmão do Emicida
O irmão Evandro Fióti: do McDonald’s para o Laboratório Fantasma (Foto: Lucas Lima)

Após se tornar conhecido pelas boas atuações nas batalhas de improviso, por volta de 2006, Emicida começou sua vida de “empresário” com uma mochila nas costas, vendendo mixtapes artesanais por 2 reais em baladas, vagões de trem ou mesmo na rua. O negócio ganhou força pela parceria com o irmão Evandro Fióti, que na época largou o emprego de gerente em uma loja do McDonald’s. “Lá aprendi os conceitos que hoje uso por aqui, como fazer controle de estoque”, conta Fióti, atualmente responsável pela administração do Laboratório Fanttasma e pelo monitoramento das redes sociais. “Já a lógica do mercado musical tive de descobrir sozinho, na prática”, completa.

Rapper Rael
O rapper Rael: contrato de três anos com o selo (Foto: Divulgação)

 Enquanto o irmão cuida do dia a dia da empresa, Emicida se concentra na organização dos shows de lançamento do disco de estreia, marcados para 10 e 11 de setembro, no Sesc Pinheiros. O espetáculo contará com a participação de nomes que também deixaram suas marcas no álbum, como o cantor e baterista Wilson das Neves, que ajuda a dar um tom malandro ao samba Trepadeira.

A cantora Tulipa Ruiz comparece na graciosa Sol de Giz de Cera, uma homenagem a Estela, de 3 anos, filha do rapper. A baiana Pitty, por sua vez, insere pegada roqueira na densa Hoje Cedo. O Quinteto em Branco e Preto, a cantora Juçara Marçal e o próprio Rael aumentam a lista de colaborações. O rapper ainda acalenta um sonho bem particular: aproximar-se mais da literatura e desenhar histórias em quadrinhos, por enquanto apenas um hobby.

Além da rima

Os números e as cifras da carreira do artista e empresário paulistano

› 80 000 reais em produtos vendidos por mês em 2012

› 80 000 mixtapes e EPs vendidos até hoje

› 10 000 cópias na tiragem do primeiro disco

› 20 funcionários na empresa Laboratório Fantasma

› 8 shows realizados por mês

Fonte: VEJA SÃO PAULO