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Elke Maravilha e Pereio são divindades gregas em espetáculo

Montagem que reflete sobre as crises contemporâneas faz parte da ocupação da Cia. Nova de Teatro no Sesc Bom Retiro

Por: Bruno Machado - Atualizado em

Elke Maravilha e Paulo César Pereio
Elke Maravilha e Paulo César Pereio  apresentam 'Krisis' no Sesc Bom Retiro (Foto: Lucas Lima)

Sob um pesado manto negro e uma peruca de longos dreadlocks descoloridos, envolta em pulseiras, colares, anéis, braceletes e caveiras, Elke Maravilha está exausta. Depois de uma longa espera para embarcar para São Paulo — causada por um nevoeiro que cobriu o aeroporto Santos Dumont durante horas —, a atriz de 68 anos consegue chegar ao Sesc Bom Retiro a tempo de se apresentar. Ao final do espetáculo, contudo, ela esbanja simpatia. “Nós estamos em crise, a Europa está em crise. O mundo está em crise. Mas isso é algo bom. A crise propõe novas possibilidades. A mãe natureza não gosta de estagnação. A realidade que vem por aí, eu não sei qual é. Acho que ninguém sabe”, reflete. Caracterizada como Hades, o deus grego da morte, ela medita. “Eu gosto muito da morte. Acho que é porque já morri muitas vezes”.

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Desde o dia 16 de julho, a Cia. Nova de Teatro promove uma ocupação no Sesc Bom Retiro, que compreende as apresentações de Caminos Invisibles, documentário cênico sobre a imigração boliviana em São Paulo, e Krisis, misto de instalação, teatro, dança e performance. É nesse último espetáculo que Elke e outra lenda do palco e das telas, Paulo César Pereio, 72 anos, roubam a cena na pele de divindades do panteão grego. “Zeus é o caos. Que outro ator para fazer o caos senão o Pereio?”, provoca o diretor Lenerson Polonini.

Elke Maravilha
Elke Maravilha interpreta Tirésias e Hades: "Gosto muito da morte" (Foto: Lucas Lima)

“Eu já tinha interpretado esse personagem no Teatro Oficina, numa peça de Eurípedes”, explica Pereio. “Depois me rebaixaram para rei, quando fiz Hamlet. Depois de Zeus, você sabe, é só a decadência”. Sobre o espetáculo, ele evitar falar. “Eu realmente não entendo muita coisa dele. Sou a pessoa menos indicada para falar sobre esse texto. Ensaiei um dia e entrei em cena”.  

Como o nome sugere, Krisis apresenta as crises de mitos e textos gregos da Antiguidade em versões atualizadas. Amparadas por projeções, desfilam Cassandra, Antígona, Creonte e outros personagens clássicos com roupagem atual. No palco, o velho cego Tirésias, também interpretado por Elke, lamenta a crise financeira na Espanha e dispara contra a frivolidade das redes sociais: “Uma foto de um recém-nascido ainda vivo preso no cano de esgoto numa cidadezinha da China. Curtir. Ah, o absurdo! Compartilhar. Todos contemplam comigo o absurdo. Isso faz dele menor? Curtir. Curtir. Curtir. A violência não invadiu somente o seu espaço. Ela tá na sua timeline”.  

Paulo César Pereio
Paulo César Pereio: "Ensaiei um dia e entrei em cena" (Foto: Lucas Lima)

Segundo Polonini, a montagem nasceu em um momento de crise, no qual a companhia não sabia exatamente que rumo tomar. A ideia de trazer os dramas clássicos para o presente foi corroborada por alguns recentes acontecimentos que sacudiram o país. “O caos que estabelecemos é o das manifestações, do momento político atual. O texto foi escrito no calor do aqui e do agora”, explica. Elke, por sua vez, sentencia: “estamos atravessando uma crise moral. As pessoas acham que a moral está no meio das pernas. Chegamos ao absurdo de um cara aí querer curar gay”, protesta, referindo-se ao pastor Marcos Feliciano, presidente da Comissão de Direitos Humanos. “Sérgio Cabral é um Creonte dos nossos tempos”, completa Polonini, referindo-se ao atual governador do Rio de Janeiro.

Durante o processo de criação, parte da companhia viajou à Grécia. Em Atenas, no Teatro Attis, fizeram uma residência de quinze dias e apresentaram, no início de julho, uma versão experimental do espetáculo. De volta a São Paulo, a montagem ganhou os ilustres reforços de Elke e Pereio. “São personagens que vivem no nosso imaginário. Eu os escolhi por suas qualidades artísticas. Não tenho qualquer interesse midiático”, garante o diretor.

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“Lenerson me chamou pois domino o grego. Muita gente pensa que sou grega. Na verdade, eu nasci na Rússia e fui morar em Itabira”, diverte-se a atriz. Pereio, que trabalha com Elke primeira vez, se diz honrado. “A gente não contracena e mal nos encontramos. Mas mesmo assim, eu acho ela fantástica e maravilhosa, mas isso é papo furado. Todo mundo sabe disso”, brinca o ator. 

Fonte: VEJA SÃO PAULO