Teatro

Elias Andreato, o campeão de peças em cartaz na capital

O ator e diretor comandou nove espetáculos em dois anos e vai estrear mais dois

Por: Dirceu Alves Jr.

Elias Andreato
"Eu fazia café, organizava os fgurinos, servia o lanche e, bem quietinho, ouvia de perto as conversas dos artistas sobre a preparação dos espetáculos", diz Andreato, sobre o início como camareiro (Foto: Fernando Moraes)

Durante cinco anos, entre 1979 e 1984, o então jovem ator Elias Andreato frequentou a Penitenciária Feminina de Santana, na Zona Norte, pelo menos três vezes por semana. Participante de um projeto social, ele dirigia espetáculos nos pavilhões do presídio protagonizados por mulheres que jamais conheceriama fama como atrizes. Eram as próprias detentas que vasculhavam sua memória para escrever e interpretar peças apresentadas no fim do ano para a população carcerária. Cabia a ele dar consistência dramatúrgica aos textos e montar uma encenação.

Baseado nessa experiência, o ator iniciante percebeu que poderia se tornar também um diretor profissional. “Ao lado dessas mulheres, aprendi que é necessário ter responsabilidade com o teatro, principalmente se estamos mexendo com histórias que, mesmo de longe, podem ter uma identificação com quem as protagoniza ou assiste a elas”, afirma Elias, que, aos 58 anos de idade e 36 de carreira, já esteve envolvido em mais de oitenta peças, metade delas como encenador.

Cartaz do Teatro Cultura Artística Itaim, o drama A Casa de Bernarda Alba, escrito pelo espanhol Federico García Lorca, traz fortes referências desse tempo. Na trama, oito mulheres estão trancadas em casa devido a um luto e, privadas da liberdade, afogam-se em angústias e desejos reprimidos. “Penso na minha mãe, nas minhas irmãs, no meu pai falecido e no engajamento político do meu irmão (o ilustrador Elifas Andreato) e percebo quanto essa história faz parte da minha vida”, afirma.

Esta é uma das quatro montagens sob seu comando na atual temporada paulistana. Ele também criou a encenação dos monólogos Eu Não Dava Praquilo e Jocasta, protagonizados, respectivamente, por Cassio Scapin e Débora Duboc, e da comédia Florilégio Musical II — Nas Ondas do Rádio, com Carlos Moreno, Mira Haar e Patricia Gasppar. São nove direções em dois anos, o que situa Andreato como o artista mais atuante dos palcos da cidade.

O pé continuará firme no acelerador no ano que vem. Hoje, ele ainda ensaia sete horas por dia, como ator, o drama Um Réquiem para Antônio, que estreia em 17 de janeiro, dirigido por Gabriel Villela. Em março, ganha o palco a comédia dramática Meu Deus, com Irene Ravache e Dan Stulbach, cujas leituras ele já comanda nas horas vagas. “Seu maior mérito é investir na simplicidade de cada palavra do texto original, sem interferências desnecessárias, e isso faz com que sua versão de Bernarda Alba seja tão bem contada”, diz Irene. Deve levar seu nome, ainda, um solo com Juca de Oliveira inspirado em Rei Lear, de Shakespeare.

Elias Andreato no ensaio de Um Réquiem para Antonio
No ensaio de Um Réquiem para Antônio:a volta como ator em janeiro (Foto: João Caldas)

Essa fase tão produtiva é explicada com bom humor. “Não tenho cachorro, planta, marido nem mulher, então o teatro ocupa meu tempo integralmente”, conta Andreato, que vive só em um apartamento próprio, nas Perdizes. A devoção ao ofício, diz, é uma forma de gratidão. Filho de um casal de lavradores, Elias nasceu em Rolândia, no norte do Paraná, e veio com a família para São Paulo ainda na infância. Na primeira vez em que foi a um teatro, aos 16 anos, viu a cantora Maria Bethânia declamando poemas no show Rosa dos Ventos. A cena está até hoje na cabeça do irmão mais velho, Elifas, que, ali, decidiu encorajá-lo no sonho profissional: “O Elias saiu da poltrona e se debruçou na boca do palco de tão impressionado que ficou com o gestual de Bethânia”.

A aproximação efetiva com o teatro não foi convencional. Em 1975, ele passou a trabalhar como camareiro do ator Antonio Fagundes no espetáculo Muro de Arrimo e, no ano seguinte, entrou para a equipe técnica da companhia dos atores Renato Borghi e Esther Góes. “Eu fazia café, organizava os figurinos, servia o lanche e, bem quietinho, ouvia de perto as conversasdos artistas sobre a preparação dos espetáculos.” Em1977, Borghi e Esther lhe ofereceram uma ponta na peça Pequenos Burgueses e, depois disso, o paranaense, que não cursou faculdade, jamais saiu do palco. Na TV, fez poucos papéis, como nas novelas Suave Veneno (1999) e Beleza Pura (2008).“Nunca fui bonito, tive uma formação cultural frágil e convivia com artistas de um mundo distante do meu. Sei quanto foi difícil pisar aqui (bate na madeira do palco), então eu quero mais é trabalhar e, assim, retribuir as chances que tive.”

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Fonte: VEJA SÃO PAULO