Teatro

Eles se desdobram dentro e fora dos palcos

Elias Andreato, Marcelo Médici e outros famosos falam sobre como é encenar dois ou mais espetáculos ao mesmo tempo

Por: Bruno Machado - Atualizado em

Marcelo Médici - 18 personagens
Marcelo Médici: 2 espetáculos, 18 personagens (Foto: Fernando Moraes)

Não há dúvida de que Elias Andreato, Alexandre Reinecke, João Paulo Lorenzon e Marcelo Médici são grandes talentos. Esses quatro homens do teatro, porém, têm algo a mais em comum: com dois ou mais espetáculos em cartaz na cidade, desdobram-se para dar conta de uma concorrida agenda.

Em cartaz com “Cada Um com Seus Pobrema” e “Eu Era Tudo pra Ela e Ela Me Deixou”, Marcelo Médici, 40 anos, se desdobra atualmente em dezoito: o ator interpreta nove personagens em cada espetáculo. Para dar conta, redobra os cuidados com a saúde e, sobretudo, com a voz, que ele define como seu “ instrumento musical”.

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“Uma vez, fazendo novela no Rio de Janeiro e uma peça em São Paulo, tive problemas vocais e consultei uma fonoaudióloga. Nem ela acreditou no esforço que eu fazia com a voz quando foi me assistir.”

Médici diz evitar ar-condicionado, sair à noite e dormir tarde. “Nessa profissão, não dá para trabalhar rouco, com dor de garganta nem mesmo com dor nas costas. Não posso entregar um trabalho meia-boca para o público que foi até o teatro só para me assistir.”

No início de carreira, o ator chegou a fazer cinco peças ao mesmo tempo. Em outra ocasião, manteve um colchão no camarim para descansar entre os ensaios de uma peça e outra. Tamanha entrega, que implica em stress, desgaste físico e horas de sono perdidas, tem uma justificativa na ponta da língua: paixão pelo teatro.

Casado com o palco

Elias Andreato explica essa devoção: “Essa é a única profissão que me permite exercitar a paixão. Eu não tenho mulher, marido, gato nem planta. Fiz análise durante um tempo e descobri que é no palco que eu consigo o que não tenho em casa, o amor. Na minha idade, é difícil, mas eu ainda acredito em final feliz”.

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Elias Andreato em "Equus"
Elias Andreato em "Equus": "A análise me mostrou que o palco me dá o amor que eu não tenho em casa" (Foto: Elias Andreato em "Equus": "A análise me mostrou que o palco me dá o amor que eu não tenho em casa")

O ator e diretor acorda às 7h30 e, depois do café da manhã, já começa a ensaiar. Há 30 anos na profissão, a rotina de trabalhar doze ou mais horas é comum. “Saio de um ensaio, como um sanduíche e parto para outro. Durmo cinco horas por noite. Se puder, trabalho em tempo integral.” O paranaense que construiu a carreira em São Paulo, atualmente, dirige “A Garota do Adeus” e “Coisa de Louco”, ambas em cartaz na cidade. Recentemente, acumulou a direção de dois outros projetos: “Gravidade Zero” e “Cruel”, que, após uma temporada de sucesso no teatro da FAAP, seguiu para os CEUs da capital.

“Quando eu era mais jovem, eu me focava em apenas um trabalho. Hoje, eu me sinto mais criativo quando faço mais coisas ao mesmo tempo. Essa coisa de repouso na terceira idade não está com nada”, brinca o ator, de 57 anos.

Andreato ainda encontra tempo para ensaiar o espetáculo “Camille & Rodin”, sobre o romance proibido de Camille Claudel e Auguste Rodin (cuja estreia está programada para o mês que vem, no auditório do MASP), e para viver um psiquiatra em “Equus”, sob direção de Alexandre Reinecke.

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Alexandre Reinecke
Alexandre Reinecke deixou os palcos para se desdobrar como diretor: me achava um bom canastrão (Foto: Fernando Moraes)

Reinecke, aliás, é outro que se desdobra, mas como diretor. Aos 42 anos, deixou de atuar há muito tempo – “diziam que eu era bom, mas me achava um bom canastrão” – e, desde então, acumula projetos concomitantes. Ele diz preferir tocar um projeto diferente por vez, mas tem quatro montagens em cartaz simultaneamente: “Uma Mulher do Outro Mundo” (até domingo), “Toc Toc”, “Como Se Tornar Uma Supermãe em 10 Lições” e “Adultérios”, que saiu do teatro da FAAP e seguiu para o CEU Aricanduva. Para o diretor, é mais fácil ser o comandante do espetáculo. “O processo é muito desgastante, mas, depois que a peça entra em cartaz, não há muito o que o diretor possa fazer. Vou às primeiras apresentações. Com o tempo, apareço nos ensaios uma vez por mês.”

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 24 horas no ar

A disposição de Andreato não assusta o não menos experiente Celso Frateschi, 60 anos, cuja rotina é bastante parecida. Desde o início de maio, o ator se reveza entre “Processo de Giordano Bruno” e “Estação Paraíso/12” (em cartaz até domingo), além de dirigir o Grupo Ágora, de pesquisa teatral, e o TUSP. Frateschi também é professor da Escola de Arte Dramática da USP, onde faz questão de ensinar aos alunos que se desdobrar no teatro é inerente à profissão: “Não conto com o patrocínio de ninguém. Vivo de bilheteria. Desde que comecei no teatro, foi assim, com a cabeça 24 horas por dia no ar. Já estou acostumado.”

Celso Frateschi
Celso Frateschi, em "Processo de Giordano Bruno": "Vivo com a cabeça 24 horas no ar. Já estou acostumado" (Foto: João Caldas)

O ator e diretor, contudo, confessa que às vezes gostaria de experimentar um ritmo diferente. “Talvez passar seis meses pesquisando um texto ou um personagem. Não sei se gosto de me desdobrar em vários, mas a realidade é essa e eu não posso me lamentar.”

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João Paulo Lorenzon
João Paulo Lorenzon, em cartaz com dois monólogos: “É muito puxado, mas não há como fugir.” (Foto: Karim da Hora)

João Paulo Lorenzon concorda com Frateschi. O ator de 33 anos está em cartaz com “Água” e “Eu Vi o Sol Brilhar em Toda Sua Glória”, projeto que preferia ter estreado mais adiante, mas recebeu aprovação do Sesc Consolação antes do esperado. “Foi um baque produtivo. Tive de apressar os preparativos. Como os dois monólogos exigem muito do ator fisicamente, espero que um espetáculo aprimore o outro.” Ele diz que ainda não sabe como consegue conciliar esse dois trabalhos. “É muito puxado, mas não há como fugir.”

Fonte: VEJA SÃO PAULO