Eleições

Até onde vai o fôlego de Celso Russomanno

A zebra na disputa pela prefeitura tenta contornar os recursos mirrados, o tempo exíguo de TV e a fama de populista vazio

Por: Daniel Bergamasco - Atualizado em

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Celso Russomanno: galope antes do horário eleitoral (Foto: Mario Rodrigues)

Na última segunda (20), dia em que completou 56 anos de idade, o candidato a prefeito pelo Partido Republicano Brasileiro (PRB), Celso Russomanno, ganhou cinco bolos de aniversário ao passar pelos vários eventos de campanha — de um churrasco no quintal de uma empresa de telemarketing a um encontro fechado com donos de hotéis e motéis. Em todos os compromissos, apagou as velinhas diante da mesma piada dos anfitriões (“Qual terá sido o pedido, hein?”), reagindo sempre com uma risada discreta, sem mostrar os dentes — o jeito, aliás, como invariavelmente sorri.

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No fim da noite, enfim, os lábios finos e pálidos se esticaram de orelha a orelha, ao descobrir que no dia seguinte figuraria como líder da corrida pela sucessão de Gilberto Kassab em pesquisa do instituto Datafolha, com 31% das intenções de voto, quatro pontos à frente do tucano José Serra e 23 acima do petista Fernando Haddad. Como a margem de erro é de 3 pontos porcentuais, a vantagem sobre Serra é apenas numérica: os dois estariam tecnicamente empatados. Na semana anterior, um outro levantamento, realizado pelo Ibope, havia mostrado também a mesma dupla dividindo a dianteira, com um presente extra para Russomanno: na simulação para o segundo turno, ele bateria o tucano por uma diferença de 7 pontos (42% a 35%).

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(Foto: Veja São Paulo)

Zebra no início da disputa, que parecia destinada a ficar polarizada entre PSDB e PT, ele virou o primeiro destaque da corrida eleitoral. Na inauguração de seu comitê na Avenida Nove de Julho, um dia depois da divulgação do Datafolha, atraiu tantos jornalistas que a turma mal cabia na sala reservada para a coletiva de imprensa. Havia tensão no ar. O deputado Vinícius Carvalho, pastor licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus e subcoordenador da campanha, que o aguardava havia mais de uma hora, falava irritado com ele ao telefone: “Mas quem te disse que seria às 10h30? A abertura estava marcada para as 9h e a imprensa chegou no horário. Está todo mundo esperando”.

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Em cena no "Aqui Agora", em 1994: perfil de justiceiro na defesa do consumidor (Foto: Egberto Nogueira)

Nos bastidores, apesar de todo o esforço para mostrar-se tranquilo e afável (“Você viu como eu beijo de verdade as pessoas na rua?”), Russomanno também parecia estar com os nervos à flor da pele. Ele tem consciência de que foi uma conjuntura favorável que o trouxe até aqui. “Enquanto Haddad é pouco conhecido, eu fiz grande parte dos meus programas de TV defendendo o consumidor nas periferias”, diagnostica. Poupado até agora pelos principais concorrentes, sabe que será atacado se mantiver bom desempenho mesmo com a estreia, na última terça-feira, do horário eleitoral gratuito, no qual tem pouco mais de dois minutos, praticamente um quarto do tempo de Serra ou de Haddad.

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José Serra e Fernando Haddad: um luta para diminuir sua rejeição, o outro para se tornar conhecido (Foto: ERNESTO RODRIGUES/AE e LUCAS DANTAS/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/AE)

Sua vidraça é grande. Entre outros episódios polêmicos, Russomanno já foi acusado de forjar contrato de aluguel para se candidatar à prefeitura de Santo André, em 2000, de agredir uma enfermeira do InCor, em 2002, e usar uma funcionária parlamentar para trabalhar em sua produtora no fim dos anos 90. No caso do InCor, o único em que há uma decisão da Justiça, acabou inocentado. Na quarta passada (22), em sabatina do jornal "Folha de S.Paulo", mostrou irritação ao ser questionado sobre alguns desses episódios. “Isso aqui não é sabatina. É outra coisa”, queixava-se, após momentos nos quais tentava falar mais alto que os entrevistadores.

A lista de assuntos controversos a explicar é longa. Diz estar processando o jornal "Correio Braziliense" por ter citado suposto relatório com a informação de que teria conta-corrente no exterior ligada a esquema do contraventor Carlos Cachoeira. Tenta também se descolar da imagem do ex-apoiador Paulo Maluf, com quem rompeu após disputa por espaço no PP.

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Por fim, jura que o bispo Edir Macedo, chefão da Universal e da Rede Record, emissora na qual apresentou um quadro de defesa do consumidor até ser impedido por força da legislação eleitoral, não está por trás de sua chapa. Tarefa difícil. Assim como Vinícius Carvalho, o número 2 na coordenação, Marcos Pereira, o chefe do staff, é pastor licenciado da igreja e até há pouco tempo era executivo da emissora. O marqueteiro Ricardo Bérgamo já foi parceiro da Record. Nos últimos dias, o deputado Campos Machado, do PTB, outro mandachuva de sua campanha, tentava fechar o apoio da Igreja Renascer em Cristo. Essa bênção, que era dada como quase certa, poderia ajudar Russomanno a aumentar sua presença nas regiões mais pobres, como os extremos Leste e Sul, onde lidera a disputa (com, respectivamente, 39% e 35% das intenções), mas que são lugares de voto tradicionalmente petista, em grande parte por projetos, como os CEUs, deixados pela gestão de Marta Suplicy, entre 2001 e 2004.

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Para Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha, a bandeira de direitos individuais carregada por Russomanno é um trunfo especialmente valioso junto ao eleitorado mais pobre. “A saúde é disparado o tema mais importante da eleição e a imagem do ‘eu vou lá e resolvo’ pode pesar mais do que qualquer proposta objetiva”, diz. O candidato, por sinal, relembra por onde passa o caso ocorrido em 1990 que o tornou famoso, mas que serviu também para dar origem à sua fama de oportunista: Russomanno documentou em vídeo seu périplo por um hospital privado para mostrar omissão de socorro à primeira mulher, Adriana, enquanto ela morria supostamente sem atendimento médico. Diz que, se eleito, fará “como Jânio Quadros” ao aparecer em visitas-surpresa a centros de saúde. Suas outras propostas são populismo puro e incluem até internet grátis sem fio para toda a população. Ele cita ainda o incentivo fiscal a empresas que se instalarem longe do centro como medida “mais imediata” para melhorar o trânsito.

Para consolidar o voto na periferia, sua agenda de eventos será concentrada nas pontas Sul e Leste da cidade, deixando um pouco de lado, por exemplo, as áreas de classe média mais centrais da Zona Leste, como Vila Formosa. Em outra frente, o vice Luiz Flávio D’Urso, presidente da seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil, tenta firmar alianças com segmentos ligados à classe média e à chamada elite da sociedade paulistana. “Meu próximo passo é apresentar Russomanno à maçonaria”, diz D’Urso, que pertence à ordem.

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O diálogo com os chamados formadores de opinião é ainda mais crucial em tempos de arrecadações minguadas para todos os partidos, algo que tem menos a ver com crise e muito com o temor dos doadores de acabarem envolvidos em denúncias e aparecerem como a construtora Delta da vez. “É uma pena, mas muitos empresários honestos desistiram de doar, temendo pela imagem”, afirma Pedro Albuquerque, dono da seguradora Nobre, que, “sem pedir nada em troca”, despejou 50.000 reais no comitê de Russomanno e fez uma festa para o candidato na terça, em um bufê. De acordo com as previsões oficiais das campanhas, a chapa liderada pelo PRB gastará até o final cerca de 30 milhões de reais, contra 90 milhões de Haddad e 98 milhões de Serra.

Enquanto o petista usa o horário eleitoral gratuito para se mostrar mais conhecido, um dos principais desafios do tucano é reduzir sua alta taxa de rejeição (38%, no Datafolha, contra 15% de Haddad e 12% de Russomanno). “A TV muda tudo, é quando o cenário começa a se definir de verdade”, lembra o cientista político Antonio Lavareda. Exemplo disso ocorreu em 2008, quando a última aferição do Datafolha antes do início do horário eleitoral gratuito trazia Marta Suplicy com 36%, Geraldo Alckmin com 32% e Gilberto Kassab com apenas 11%. Como se sabe, Kassab conseguiu virar o jogo e foi reeleito. Já houve na capital, porém, quem desafiasse a lógica da exposição televisiva. “Veja o caso de Luiza Erundina, então no PT, que em 1988 venceu mesmo tendo oito minutos, ante quase dez de Maluf e dezoito de João Leiva, do PMDB”, relembra Mauro Paulino, do Datafolha.

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No comitê petista, o desempenho de Russomanno passou a ser visto com óbvia preocupação. Segundo o Datafolha, quase metade dos paulistanos que rejeitam Serra, eleitores potenciais de Haddad, portanto, mostra-se hoje inclinada a apoiar a chapa do PRB. Nas hostes tucanas, a avaliação é que, entre dois males, o maior seria enfrentar no segundo turno Haddad, que tem mais dinheiro em caixa e é apoiado por Lula e Dilma Rousseff, que não entrariam de cabeça na campanha de Russomanno.

As emoções devem continuar fortes até o primeiro turno, em 7 de outubro, ao qual, para o historiador Marco Antonio Villa (clique e confira a entrevista), é bem possível que os três principais nomes cheguem com pouca diferença porcentual. “Deverá ser uma disputa voto a voto”, acredita ele. Nesse cenário, o clima de tudo ou nada é tão inevitável quanto perigoso. O próprio Campos Machado adianta uma das estratégias: extrair o máximo de empenho de todos os candidatos a vereador na base do toma lá dá cá explícito. “Estamos deixando claro que mesmo os derrotados serão aproveitados no governo de alguma forma”, conta. Mas vai ter cargo para todo mundo? “A cidade é muito grande...”. Se a zebra conseguir de fato chegar lá, este terá sido um péssimo começo.

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O retrospecto do azarão

Nome: Celso Ubirajara Russomanno

Patrimônio declarado: 2,3 milhões de reais

Raízes paulistanas: nascido no Paraíso, criado na Vila Mariana, morador do Morumbi

Na TV: ganhou fama ao levar a seu programa de colunismo social, “Circuito Night and Day”, na Gazeta, imagens feitas por ele próprio do périplo por um hospital em busca de informações sobre a internação da primeira mulher, Adriana, que acabou morrendo. Projetou-se ali como defensor do consumidor, tema de seus quadros no “Aqui Agora”, do SBT, e mais recentemente na Record

Cargos públicos: nos anos 80, foi chefe de emplacamento do Detran. Em 1994, tornou-se o deputado federal mais votado do país. Foi reeleito para mais três mandatos. Ficou em terceiro na disputa para governador em 2010, com 1,3 milhão de votos

Sopa de letrinhas: já foi do PFL, PSDB, PP e está hoje no PRB. “Saí porque achei necessário, mas prezo muito a fidelidade partidária”

Relacionamentos-modelo: Adriana havia sido Miss São Paulo, e a atual mulher, Lovani, era manequim da agência Mega

História de amor: ”Lovani namorava um amigo meu, eu também era comprometido e saíamos os dois casais juntos. Mas começamos depois que estavam todos solteiros”

Filhos: tem Luara, de 25 anos, com Adriana, e Celsinho, 9, com Lovani, que está grávida de oito meses de Catherine

Dons aéreos: pilota helicópteros “dos amigos” e também tem licença para jatinhos

Dons esotéricos: ele se diz parapsicólogo e hipnólogo. “Hipnotizo para fazer o bem, como ajudar as pessoas a parar de fumar”

Imóveis: possui cinco casas (no Morumbi, onde mora, em Carapicuíba, Campos do Jordão, Itanhaém e no Distrito Federal) e dois apartamentos (na Aclimação e no Jardim Ester Iolanda)

Russomáquinas: tem sete carros, uma lancha Phantom, uma moto e 22 bicicletas

Vaidades: “Treino diariamente na academia de casa, faço automassagem com creme para melhorar o tônus do rosto e uso xampu tonalizante”

 

Fonte: VEJA SÃO PAULO