Eleições – Legislativo

Por que políticos como Maluf e Tiririca são os preferidos do eleitor

O dia a dia da campanha dos candidatos polêmicos

Por: Ana Carolina Soares e Silas Colombo

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Maluf, durante carreata de jipe em Itaquaquecetuba: na lista da Interpol desde 2010 (Foto: Mario Rodrigues)

Imagine um grupo de pessoas composto de um foragido da Interpol, outro acusado de homofobia e um terceiro que, fantasiado de palhaço, ocupa um cargo sobre o qual assume não saber para que serve. Sob essa ótica, pareceria o elenco de vilões de um filme de baixo orçamento. Mas não, essas são características dos candidatos a deputado federal com maior intenção de voto no estado, segundo pesquisa do Ibope divulgada na semana passada. O ex-governador Paulo Maluf (PP), o pastor Marco Feliciano (PSC), o comediante Tiririca (PR), o apresentador Celso Russomanno (PRB) e o deputado estadual Baleia Rossi (PMDB) são os nomes mais lembrados pelos eleitores entre os quase 1 500 que almejam ocupar uma das setenta vagas paulistas na Câmara, em Brasília.

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O palhaço Tiririca, com o traje de campanha, na Lapa: na Câmara, só legislou sobre circo (Foto: Divulgação)

Apesar de reunirem o apoio necessário à eleição com muita facilidade, essas figurinhas carimbadas da política amargam alto índice de rejeição. Na manhã da última terça (23), por exemplo, Maluf participou de uma minguada carreata entre Itaquaquecetuba, Poá e Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo. A bordo de um jipe vermelho com a capota aberta, acenou durante uma hora e meia, mas foi abordado apenas cinco vezes nesse período. Em uma das ocasiões, um pedestre fez um gesto de desaprovação. O ex-prefeito da capital sorriu de volta. “Tenho a consciência tranquila, sou o mais ‘ficha limpa’ do Brasil”, afirma. Não é o que pensa a Justiça Eleitoral. Com a candidatura barrada por improbidade administrativa, o veterano apelará ao Supremo Tribunal Federal (STF) para desfrutar de seus momentos derradeiros na vida pública. “A idade chegou, talvez seja minha última eleição”, diz o concorrente de 83 anos. Na lista de procurados da Interpol desde 2010 a pedido da Justiça de Nova York, ele é acusado, em um caso diferente daquele que levou sua candidatura a ser barrada, de desviar recursos da obra da Avenida Jornalista Roberto Marinho, na Zona Sul. A verba teria passado por instituições dos EUA. Continua livre porque, como cidadão brasileiro, não pode ser preso pela Justiça americana estando em solo brasileiro.

Celso Russomano
Russomanno, em feira na capital: uso de verba ofcial com a família (Foto: zanone fraissat/Folhapress)

Maluf não é o único queridinho do eleitor paulista que anda enrolado com a Justiça. O pastor Marco Feliciano foi alvo de dois processos no STF, um por racismo e homofobia e outro por estelionato. No caso do primeiro, declarou que “a podridão dos sentimentos dos homoafetivos leva ao crime” e “africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé”. No segundo, teria embolsado cerca de 13 000 reais para realizar uma pregação, mas não apareceu. Enquanto tenta se desvencilhar das encrencas, aposta em seu habitat para angariar votos, concentrando- se em igrejas, onde se apresenta até três vezes por dia. “Apenas participo do culto, as pessoas é que me abordam”, afirma ele, que tem uma explicação para sua popularidade. “São Paulo tem o povo mais conservador do Brasil.”

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Pastor Marco Feliciano, durante “participação” em igreja: acusação de homofobia (Foto: Divulgação)

Ainda que não passe por esse tipo de situação, Tiririca honra seu título de palhaço. Em quatro anos na Câmara, apresentou na maioria das vezes projetos ligados ao universo do circo, sem subir na bancada uma vez sequer para defender algum posicionamento. Com uma campanha surpreendente  para prefeito da capital em 2012, Russomanno tem sua fama ligada a um quadro sobre direitos do consumidor num programa de televisão. Mas, entre 2008 e 2009, como deputado federal, tratou mal do dinheiro do contribuinte ao usar verba de gabinete para comprar passagens aéreas para a esposa e a filha. Já Baleia Rossi divide a liderança do PMDB com o pai, o ex-ministro da Agricultura Wagner Rossi, que pediu demissão após denúncias de corrupção.

tabela perfil eleitor
(Foto: reprodução)

Para especialistas, ser controverso é bom negócio do ponto de vista eleitoral. “Políticos conquistam votos na mesma velocidade em que provocam desavenças”, diz o professor Rui Tavares Maluf, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Candidatos que criam mais polêmicas que projetos, os chamados “puxadores de votos”, têm papel importante no modelo adotado hoje para o Legislativo. A regra do coeficiente eleitoral estabelece um número mínimo de votos para garantir que o partido seja representado na Câmara. As vagas são distribuídas entre os membros mais votados da coligação. Em 2010, os votos que Tiririca recebeu (quase 1,4 milhão) levaram mais três deputados do PR ao Congresso. Essa distorção seria parcialmente corrigida com a adoção do voto distrital, que dividiria o estado em regiões, cada uma indicando um representante.

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tabela intenção de voto
(Foto: reprodução)

Uma pesquisa do Ibope mostra ainda o panorama da corrida para deputado estadual, na qual 1 862 nomes disputam 94 vagas. Por ali, do mesmo modo, há rolos judiciais, como o de Ivana Camarinha (PV), que foi condenada por compra de voto em 2008, na campanha para a prefeitura de Pederneiras, no interior. O levantamento revela também que quase 90% das pessoas não sabem em quem votar para o Legislativo. Não dar a devida importância a isso é um problema. Entre outras atribuições, um deputado federal paulista cuida da defesa do estado na discussão de pautas nacionais. Ao lado dos senadores, ele é responsável, entre outras coisas, por observar o cumprimento da Constituição e por propor a alteração de seus artigos, por meio de emendas. Deve ainda fiscalizar o Poder Executivo, em comissões parlamentares de inquérito ou processos contra presidentes e ministros. Um deputado estadual tem função legisladora e fiscalizadora semelhante, no âmbito regional. Por isso, não dá para deixar uma escolha tão importante para a última hora.

Fonte: VEJA SÃO PAULO