Patrimônio

Prédios na Praça da República seguem trajetórias opostas

Enquanto o Edifício Caetano de Campos atravessa os anos em ótima forma, o vizinho Esther virou símbolo de abandono

Por: Mariana Barros

República - 2237
Os edifícios que ficam a poucos metros de distância um do outro: relevância histórica (Foto: Fernando Moraes)

Integrada à Linha 4 – Amarela do metrô desde o mês passado, a Estação República, que até então servia apenas à Linha 3 – Vermelha, passou a receber 165.000 passageiros por dia, mais que o dobro do seu movimento anterior. O novo trecho liga as estações Luz e Paulista, oferecendo mais uma opção de baldeação e de conexão com os trens da CPTM. Além das facilidades da rede subterrânea, os usuários podem desfrutar atrativos bem acima da superfície. A Praça da República abriga dois dos mais importantes ícones da arquitetura paulistana. Apesar da grande relevância histórica, ambos tiveram trajetórias opostas e, por isso, vivem momentos bem diferentes. 

Edifício Caetano de Campos - 2237
Caetano de Campos: Erguido em 1894, ganhou um novo pavimento na década de 30 para abrigar a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Escapou de ser demolido nos anos 70 para a construção da Estação República e passou por um amplo restauro. Em 2010, ocorreram obras na cobertura e em outras instalações. Um novo projeto de reforma está em fase de finalização (Foto: Fernando Moraes)

Um deles, o Edifício Caetano de Campos, obra saída das pranchetas dos arquitetos Antônio Francisco de Paula Souza e Ramos de Azevedo, escapou de ser demolido, para a construção do metrô, nos anos 70. “Fizemos campanha para desviar o traçado e proteger o prédio”, afirma Benedito Lima de Toledo, supervisor técnico do primeiro restauro, de 1979, logo após o imóvel ter sido salvo do tatuzão. O empreendimento atravessou os anos em ótima forma e deve passar por uma nova faxina até dezembro, dentro da programação periódica de obras de preservação do patrimônio. Atualmente, sua escadaria é movimentada pelo entra e sai de funcionários da Secretaria de Educação do Estado, sediada ali há mais de trinta anos. “Dar uso ao edifício é essencial para garantir a conservação”, diz Toledo.

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A poucos metros dali, o Edifício Esther, com janelas corridas, pilotis, terraço-jardim e espaços moldáveis ao gosto do freguês, resiste como pode. Uma série de janelas quebradas denuncia o estado de abandono do grande marco modernista construído entre 1936 e 1938. Os dois fossos de ventilação estão imundos e repletos de umidade. Por incrível que pareça, a situação já esteve pior. Nos anos 80, no ápice da decadência, chegou a ter gente morando nos corredores. Hoje, há um restaurante por quilo no 2º andar, para 150 pessoas, e uma mesquita muçulmana no 10º (frequentada principalmente por imigrantes africanos). O fluxo de visitantes é intenso, embora muitos conjuntos sirvam apenas como depósito. 

Edifício Esther - 2237
Edifício Esther: Projetado pelos arquitetos Vital Brazil e Adhemar Marinho, foi construído entre 1936 e 1938. Ícone modernista, pertencia à Usina Esther, que cuidou do edifício até 1962, quando o vendeu a inquilinos. Nos anos 80, a manutenção piorou muito. O tombamento ocorreu em 1990, quando muitos conjuntos já estavam descaracterizados (Foto: Fernando Moraes)

“Quando assumi estava tudo caindo”, diz o síndico João Miguel Jarra, há oito anos na função. Entre as benfeitorias que concluiu estão o restauro das luminárias originais e as reformas hidráulica e elétrica. “Os órgãos de preservação criam entraves sem dar contrapartidas”, afirma. “Não posso mexer em nada sem ter a assinatura deles.” Na semana passada, por exemplo, teve de suspender a troca de um dos elevadores por falta de autorização. “Há dias em que apenas um dos cinco funciona. Já gastamos 100.000 reais só em conserto”, conta ele, que pretende deixar o cargo no fim do ano.

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O Esther foi projetado a pedido da família Nogueira, dona da Usina Açucareira Esther, para se tornar a sede da empresa. Desde o início, o prédio combinava escritórios e residências, mix que perdura até hoje, com a convivência de dezoito apartamentos e 94 conjuntos comerciais. Entre seus ex-moradores está o colunista social e escritor Marcelino de Carvalho, cujos livros de etiqueta eram uma bíblia para a sociedade paulistana. A decadência começou após a companhia vender o imóvel, nos anos 60. Conforme mostra o exemplo do Caetano de Campos, está na hora de receber cuidados que lhe deem vida e o façam brilhar como o vizinho ilustre.

Fonte: VEJA SÃO PAULO