Crônica

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Por: Ivan Angelo - Atualizado em

Queridíssima.

Aqui na terra estão jogando futebol, a coisa aqui tá preta e ainda é difícil segurar esse rojão. Melhor você ficar na sua nevasca; aqui, boiamos nas enchentes.

Novidades, temos muitas, mas nenhuma é nova de verdade. Estão discutindo outra vez a progressão da pena. Sabe o que é? Se lembra, não? Essa expressão, brumosa para nós, é música para os bandidos e seus defensores. Significa que um hediondo qualquer condenado a oitenta anos pode sair após cinco anos de cadeia. Significa que, depois de cumprir um sexto da internação máxima brasileira, de trinta anos, um desses caras que matam e queimam a vítima, ou estupram e matam, ou matam os pais a pauladas para apressar a herança, ou mutilam e matam, pode "progredir" para o regime semi-aberto. Usar a cadeia como hotel, só para dormir. Entendeu? Nessa camaradagem entre a Justiça e o crime, podem entrar condenados a noventa, 120, 200 anos. Para parar com isso, bastava sabe o quê? Uma emendazinha. Fazer a pena "progredir" após um sexto da condenação: os sentenciados a noventa anos só teriam a moleza após quinze trancados; a 120 anos, após vinte de sol quadrado; a 200, após 33,3.

Essa discussão, queridíssima, ressurgiu porque uns aloprados arrastaram uma criança pendurada num carro por 7 quilômetros. Você deve ter visto na TV daí. Deu no mundo inteiro. Viu os caras? Classe média baixa de subúrbio, moços, esbeltos, barrigas de tanquinho. Um, menor, foi mostrado com aquela mancha embaçando a cara, como sempre. Não querem que a gente reconheça o garoto que vai nos assaltar na esquina no mês que vem.

Nas esquinas, você nunca sabe quem vem lá, se um malabarista, um assaltante, um cachaceiro ou um pedinte sem habilidade para show com bolinhas. Agora os malabaristas levantam a camisa e giram na frente dos carros, para mostrar que não estão armados. Pequenos grupos pedintes se instalam pelas esquinas de todos os bairros, de todas as cidades: crianças no sol, mães na sombra, bebês nos peitos. A população, condoída, ajuda. É o grande programa social nacional: o Bolsa-Esquina.

Turistas agora estão fazendo tour em favela. Continuam a ser assaltados, mas fora de lá. Gentileza local. Chegaram antes do Carnaval, viram umas peladonas rebolando, adolescentes fazendo programa, pegaram um sol, umas caipirinhas e fizeram um tour guiado pela Rocinha. É, de jipão aberto: "Pessoal, olhaí o pitoresco povo brasileiro, alá o Cristo Redentor, ó a Lagoa que linda, ó Ipanema!" Turista tem essa coisa esquisita: gosta de belezas e de horrores. Tem turismo em Bagdá, acredita?

Bom, depois das festas, vamos ver se o país começa a andar. Sei não. Lembra que numa carta de quatro anos atrás eu falava com esperança no Congresso que se instalava? Pois é: foi dos piores. Não caio noutra. Lembra que eu falava que não entendia como é que alguém podia querer ser presidente, governador, prefeito, com tanto pepino? Eles passam, os pepinos ficam. Nosso prefeito mal começou e já se destemperou. Lembra-se da Marta, do Covas, do Jânio? Destemperados. Sou mais o mineiro Milton Campos. Queriam que ele, governador, mandasse o trem militar para acabar com a greve dos ferroviários, que estavam com o salário atrasado havia meses. E ele: "Não seria melhor mandarmos o trem pagador?"

Olha, aquele casal de amigos de vocês que foi passar os feriados aí chegou, não é? Você ligou preocupada. Foi só um atraso, certeza. É culpa de Congonhas. Por causa da lâmina d'água na pista, ele fica interditado e espalha o caos por outros aeroportos. Aqui, agora, o aeroporto, além de ter teto, vai ter de dar pé.

Beijos, queridíssima. Se preocupe não: sobreviveremos.

Fonte: VEJA SÃO PAULO