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Donos do Caos estrelam um novo reality show a partir de terça (25)

A loja de antiguidades da Rua Augusta vira bar-balada à noite e será palco de programa no History Channel

Por: Pedro Henrique de Araújo

Carrô e Tibira do Caos - perfil 2288
Carrô e Tibira: protagonistas de uma série no History Channel (Foto: Fernando Moraes)

É difícil se achar em meio a tanta coisa antiga. Brinquedos, discos de vinil, roupas, sapatos, aparelhos eletrônicos, móveis, bicicletas, até uma bomba de gasolina e uma lambreta lotam as paredes, o chão e o teto do ambiente. Localizado no número 584 da Rua Augusta, o Caos funciona como uma loja de antiguidades das 12 às 18 horas. Depois disso, o local vira um bar-balada para moderninhos, com trilha sonora composta de rock, soul e funk dos anos 70.

O acervo de 3.500 itens do lugar é a união dos pertences da diretora de arte Caroline Schamall, de 34 anos, a Carrô, e do empresário José Tibiriçá Martins, 48, o Tibira. Colecionador ávido, ele tem em sua casa mais de 2.000 artigos, que incluem intermináveis fileiras de carrinhos e uma jukebox de 1968. Sua sócia prefere peças mais femininas, como abajures de louça e bolsas antigas, que formam uma coleção de aproximadamente 1.000 componentes.

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Apesar da quantidade quase infindável de quinquilharias expostas ali, a dupla sabe dizer a procedência exata de todas as peças. “Cada coisa tem uma história específica, então é muito difícil nos confundirmos”, conta Tibira, que jura lembrar onde e de quem comprou quase tudo o que tem colecionado desde os seus 14 anos. “O boneco do Popeye, por exemplo, arrematei numa feira em San Telmo, na Argentina. O painel de fliperama arrumei com um cara que conserta esse tipo de máquina lá na Zona Leste”, enumera.

Carrô começou a se interessar por esse universo há nove anos, ao fazer trabalhos de produção para filmes e peças de teatro. “Eu levava um objeto para compor o cenário e acabava ficando com mais uns dez para mim”, lembra. “Além disso, quando acabavam as gravações, sempre dava um jeito de ficar com alguns itens ou comprá-los.”

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Inaugurado em maio do ano passado, o Caos passa a ter uma terceira função a partir desta terça (25). Será o palco de um reality show com o mesmo nome do bar. O enredo gira em torno do dia a dia dos sócios e dos frequentadores do negócio.

Os vinte episódios da série, cada um com meia hora de duração, foram gravados entre abril e julho e irão ao ar pelo canal fechado History Channel, às 23 horas das terças. “Quando me mandaram a foto do Tibira e uma descrição do estabelecimento, achei que tinha potencial para ser uma série interessante”, afirma Krishna Mahon, produtora executiva da emissora. “Ao ver a Carrô tive a certeza de que eles eram os personagens certos.”

Juliana Braggion do Caos - perfil 2288
Juliana Braggion: a vendedora atende mais de vinte colecionadores por dia (Foto: Fernando Moraes)

A iniciativa faz parte da série de programas que estão sendo produzidos de acordo com a determinação da Agência Nacional do Cinema (Ancine). A lei nº 12485, aprovada no ano passado, exige que até o fim de 2013 todos os canais brasileiros de séries, filmes, animação e documentários de TV por assinatura apresentem em seu horário nobre, das 18h à meia-noite, pelo menos três horas e meia semanais de conteúdo nacional.

O “Caos” tem elementos para ser o programa mais curioso da safra. Um dos primeiros episódios mostra o drama de uma colecionadora que sonha encontrar o LP “Build Up”, o primeiro gravado em carreira-solo por Rita Lee. Carrô entra em cena para ajudar a cliente e faz um périplo por lojas especializadas na cidade, até encontrar a preciosidade com China, cantor e apresentador da MTV. Durante a negociação, fecha um escambo, dando em troca um álbum autografado pelo Chico Buarque. “A Carrô tem o dom de desvalorizar o seu produto e valorizar o dela”, brinca China.

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Na loja da Augusta, o que vale é a lábia na hora da barganha, pois o preço das peças pode ser pechinchado. As pessoas aparecem para comprar ou se desfazer dos mais variados tipos de objeto. “Atendo diariamente pelo menos vinte pessoas, quase sempre tipos marcantes”, diz a vendedora Juliana Braggion, de 31 anos.

No antiquário há dois meses, ela conta que mesmo sem ser especialista em nenhuma coleção específica, já sabe identificar os itens mais preciosos. “Se você pegar um brinquedo chinês hoje, ele não vale nada, mas os da década de 50, por exemplo, alcançam altas cotações”, afirma.

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Tibira também se encarrega de cuidar da freguesia. Na terça passada, por exemplo, deu atenção a um senhor que se interessou por miniaturas de aviões e livros sobre o tema. Depois que o homem saiu de lá sem comprar nada, Tibira comentou que era um velho conhecido. “Esse cara tem mais de 700 aviõezinhos em casa. A mulher dele já está ficando maluca.”

 

QUEM GARIMPA ACHA

Peças raras e cobiçadas que estão no acervo de 3.500 itens da loja

Objetos do Caos - perfil 2288
Rádio de mais de quarenta anos (R$ 380,00) e carrinho de lata da década de 50 (R$ 350,00) (Foto: Fernando Moraes)

Bom companheiro Com mais de quarenta anos, o rádio ainda funciona perfeitamente. Foi fabricado pela empresa brasileira Poneradio. Custa aproximadamente 380 reais.

Modelo clássico Carrinhos de lata da década de 50 fazem muito sucesso entre os colecionadores. Esse exemplar americano foi comprado em uma feira de antiguidades em Miami e está sendo vendido por 350 reais.

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Garimpo em meio ao Caos: telefone (R$ 350,00), rato (R$ 180,00) e robô (R$ 1.200,00) (Foto: Fernando Moraes)

Anti-Mickey O rato barrigudo, sujo e desalinhado foi criado em 1961 pelo artista plástico Ed Rothy como uma antítese do “careta” Mickey Mouse. Na loja há oito peças de uma edição limitada de 2005. Foram fabricados apenas 1.000 exemplares de cada modelo. Sai por 180 reais.

Sucata cult Feito por um artista plástico da Zona Leste, o robô foi criado na década de 70 com peças de carros antigos. Restaurado, acende as luzes e tem até uma caixa de som que funciona. Cotado a 1.200 reais.

Predileto de JK O telefone de 1956 ficou popular no Brasil por causa do ex-presidente Juscelino Kubitschek, que achou o modelo inovador e decidiu adotá-lo em todas as repartições públicas do país. Essa peça, da marca Ericofon, vale 350 reais.

Fonte: VEJA SÃO PAULO