Cinema

"Raul — o Início, o fim e o Meio" não é só para fãs do Maluco Beleza

O diretor Walter Carvalho não economiza tempo nem talento em documentário sobre ícone do rock nacional

Por: Miguel Barbieri Jr.

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Show de 1975: momento lendário de "Raul — O Início, o Fim e o Meio" (Foto: Lucio Marreiro)

Os irmãos Vladimir e Walter Carvalho seguiram na mesma direção em recentes trabalhos. Consagrado documentarista, Vladimir rememorou a ascensão das bandas brasilienses da década de 80 em “Rock Brasília — Era de Ouro”. Premiado diretor de fotografia de “Central do Brasil”, Walter foi atrás da trajetória completa de Raul Seixas. Figura emblemática da música brasileira, o Maluco Beleza morreu em 1989, mas ainda possui uma legião de fãs. No entanto, o documentário "Raul — O Início, o Fim e o Meio" não se restringe a eles.

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Todos os ingredientes de uma boa cinebiografia estão lá. Cronologicamente e sem perder o fio da meada, o realizador vai do nascimento de Raul, na Salvador de 1945, à morte, 44 anos depois. Volta à Bahia para mostrar o fascínio do cantor por Elvis Presley na adolescência e o surgimento de “Raulzito e Os Panteras”, seu primeiro disco, gravado em 1968, no Rio de Janeiro. O sucesso, contudo, veio a partir dos LPs “Krig-Ha Bandolo!” (1973), contendo “Metamorfose Ambulante” e “Ouro de Tolo”, e “Gita” (1974), trazendo, além da faixa-título, “Medo da Chuva” e “Sociedade Alternativa”. Bom de papo e persistente, Walter Carvalho chegou a duas ex-esposas, três ex-companheiras, três filhas e um neto, alguns deles morando nos Estados Unidos — apenas Edith, a primeira mulher, se recusou a dar entrevista. O escritor Paulo Coelho, seu mais notório parceiro musical, não economizou palavras e lembrou ter apresentado a Raul as drogas, do ácido ao chá de cogumelo.

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Há outros trunfos, como apresentar personagens excêntricos entre os noventa entrevistados. Exemplos: Cláudio Roberto, coautor de “Rock das Aranhas” e “Cowboy Fora da Lei”, e Edy Star, integrante do disco “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10”, de 1971. Muitas imagens-relíquia também estão presentes, entre elas um show de 1975 no qual o roqueiro lê o texto da tal Sociedade Alternativa, formada a partir da “filosofa de vida” do bruxo inglês Aleister Crowley (1875-1947), e cenas do obscuro filme em super-8 “Contatos Imediatos do Quarto Graal”, em louvor ao satanismo. Levado em narrativa hipnótica, o documentário tem algumas apelações, como fazer sua humilde secretária voltar ao apartamento onde ele foi encontrado morto ou mostrar seu rosto no caixão. Talvez sejam tentativas de comover a plateia. Nem precisava. Só de ouvir as canções do Maluco Beleza os espectadores já se emocionam. Toca Rauuul!

AVALIAÇÃO ✪✪✪

Fonte: VEJA SÃO PAULO