Crônica

Ditadura da chapinha

Por: Walcyr Carrasco

Ditadura da chapinha - crônica 2205
(Foto: Veja São Paulo)

O penteado é sagrado para as mulheres. Silvana é uma funcionária pública que trabalha no centro da cidade. Em um dia chuvoso, uma jornalista do departamento, negra, bonita e vaidosa, chegou arrasada. Anunciou aos prantos:

— Fui assaltada!

Segundo contou, o ladrão era um travesti. Quando ele a abordou, seguiu-se o diálogo:

— Passa o guarda-chuva!

— Está chovendo muito. Leva a minha carteira.

— Eu não estou de brincadeira. Dá logo esse guarda-chuva. Olha que tenho uma faca!

— Eu dou. Mas me dá uma carona até o final da passarela do Parque Dom Pedro? De lá em diante tem a cobertura das lojas. Assim não molho o meu cabelo.

O travesti agitou as madeixas tingidas.

— Esse horror? Meu cabelo loiríssimo é que precisa do guarda-chuva. Anda logo, senão eu te furo!

No emprego, com os cabelos encharcados, a garota não parava de chorar. Silvana se compadeceu:

— Eu compro uma sombrinha bem bonita para você.

As lágrimas aumentaram:

— Eu não preciso de guarda-chuva. Tenho seis! O problema é meu cabelo. Passei o sábado fazendo chapinha. A cabeleireira disse que eu tinha que ficar três dias sem molhar. E agora vou ter que fazer tudo de novo! Ai, meu Deus, tudo de novo!

E voltou a chorar copiosamente.

Homem não se preocupa em preservar o cabelo. Mulher é capaz de tudo para salvar o penteado. Descobri isso aos 14 anos. Estava em Marília, no clube, nadando com amigos. Cintia, a garota mais bonita da classe, tomava sol. Chamei:

— Vem nadar!

— Eu não quero molhar meu cabelo.

Achei uma completa bobagem. Charme de menina difícil! Hoje constato: Cintia era apenas precoce. Em fins de semana de trovoadas, os entregadores de pizza comemoram. Depois de passar a tarde na escova progressiva, a mulherada não quer se arriscar a sair. E pede pizza. Haja caixinhas!

Um amigo que gosta da noite me contou: em dia de chuva não se sabe se vai ter mulher nas baladas. As filas costumam ser do lado de fora. Só os homens se submetem. Dentro, vira um clube do Bolinha. Mas, se o tempo abre, as garotas chegam em manadas. Refugiam-se nos carros, esperando a chuva passar!

Após um evento em Nova York, certa vez uma amiga topou dividir o táxi com uma modelo. Mal se conheciam. De repente, a modelo arrancou a touca de sua cabeça.

— É só até o carro. Fiz escova progressiva!

As mulheres são capazes de tudo por um penteado. Em um salão sofisticado da cidade, havia uma cliente que sempre usava o truque. Dizia que ia pagar depois, esquecia... Até que resolveu fazer megahair. Nesse caso, o cabeleireiro costuma revender os cabelos, que são colados nos já existentes. Aumentam o volume e o comprimento. O serviço também costuma ser bem cobrado: são quatro ou cinco horas colando mecha a mecha. A conta deu quase 6.000 reais. A cliente tentou o golpe:

— Estou desprevenida. Pago depois.

Iniciou-se o bate-boca. Veio o segurança do shopping. Ela insistia no truque. O cabeleireiro agarrou suas madeixas e ameaçou:

— Eu tiro tudo. Mas o megahair você não leva. Ela pagou. Em dinheiro vivo!

Outra alisou, clareou e penteou. Valor: 800 reais. Ela revoltou-se:

— Pago só 200!

Briga daqui, briga dali, o dono do salão chamou a polícia. Saíram todos na viatura. Durante o depoimento, a cliente desmaiou. Foi levada às pressas para a Santa Casa, novamente na viatura. Depois de internada, deu o chapéu nos policiais. Ninguém sabe como fugiu. Deu o golpe do penteado. É verdade, está fichada. Mas loira e com chapinha!

Fonte: VEJA SÃO PAULO