TEATRO

Após briga com plateia, diretor de peça sobre Chico Buarque se desculpa

Claudio Botelho se disse "envergonhado" por ter desrespeitado autor e público no último sábado (19)

Por: Veja São Paulo - Atualizado em

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Claudio Botelho e a atriz Soraya Ravenle dividiam o palco em Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos (Foto: Divulgação)

O ator e diretor Claudio Botelho reativou nesta terça (22), sua conta no Facebook para se desculpar pelo incidente de sábado (19), em Belo Horizonte, quando um comentário seu revoltou parte da plateia, o que interrompeu a peça Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos.  

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Botelho usou seu perfil do Facebook para publicar um pedido de desculpas oficial sobre o ocorrido. "Não tenho nenhum direito de inferir, pressupor, fazer ilações com nada que se refira ao autor, seja Chico ou qualquer outro artista que me autorize a trabalhar com sua obra", justificou. "Falhei com minha responsabilidade, com Chico, falhei com o teatro e com a música."", escreveu o diretor das versões brasileiras de Nine e Chicago

Entenda o caso

Durante a apresentação, o ator e diretor Claudio Botelho chamou a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula de "ladrões", o que provocou a ira de parte da plateia, que entoou gritos de "não vai ter golpe".

Depois disso, Botelho retrucou e falou: "Vamos terminar o espetáculo e ver se não vai ter golpe", o que elevou o número de vaias. A direção da peça decidiu então suspender a sessão na hora e cancelou a apresentação programada para o domingo. O  Sesc cancelou o espetáculo, que encerraria a temporada nesta data.

Discussão vazou na internet

Botelho enfrentou outro problema com a divulgação de uma gravação da conversa que ele teve com uma das atrizes do espetáculo, Soraya Ravenle, no camarim. Ela tenta acalmar o ator argumentando que considerava um erro o acontecido, especialmente por causa da forte comoção que a política vem provocando no país nas últimas semanas.

Leia o texto na íntegra:

UM PEDIDO DE DESCULPAS

Os incidentes do último sábado em Belo Horizonte durante a sessão do musical TODOS OS MUSICAIS DE CHICO BUARQUE EM 90 MINUTOS são do conhecimento de todos, eu suponho. Emiti uma opinião pessoal que causou reação negativa de uma parte da plateia. Mais do que isso, o espetáculo foi interrompido e a sessão não chegou ao final.

Deste acontecimento infeliz que me tem causado enorme desgosto desde então (ameaças à minha integridade física pelo Facebook, telefone, trotes, acusações diversas sobre meu caráter e minha honra, insinuações sobre meu pensamento a respeito de temas delicados como racismo, autoritarismo, censura, entre outros) – desde aquele momento, apenas sofro, penso e repenso, estou muito triste. Porém minha tristeza é o que menos interessa neste momento.

Mas há algo fundamental e definitivo: peço desculpas a Chico Buarque. Nada do que vier de mim, nenhuma palavra, gesto ou pensamento, poderá jamais servir para desagradá-lo. Ele é o autor, o compositor, e estou trabalhando com sua obra. Desta forma, reconheço sua soberania a respeito de tudo que envolva seu nome e sua criação. O simples fato de mencionar qualquer assunto ligado a Chico (citei em entrevistas, equivocadamente, o histórico atentado à peça RODA VIVA nos anos 1960, que não têm qualquer semelhança com o fato do último sábado; citei episódios de repressão pelos quais ele passou, assuntos que não são de minha alçada e que não têm qualquer ligação com o incidente de sábado passado) é inaceitável, não tenho nenhum direito de inferir, pressupor, fazer ilações com nada que se refira ao autor, seja Chico ou qualquer outro artista que me autorize a trabalhar com sua obra. Minha obrigação – por ética e respeito – é ser cuidadoso, reverente, e em nenhuma hipótese atingir a história, o pensamento, a identidade de quem me permite generosamente colocar em cena suas obras. Este é meu dever como diretor, ator, e produtor.

Errei. Erro muito. Sou humano, mas isso não me desculpa. Aos 51 anos, sendo também autor e sendo um homem de história longa no teatro, eu tinha por obrigação preservar o autor e sua obra, não permitir que nada partindo de mim resvalasse nele, seja da forma que fosse. Por ser um admirador apaixonado e mais que isso, um pretenso “buarquiano” de carteirinha, minha responsabilidade é ainda maior. Dirigi e produzi ÓPERA DO MALANDRO, SUBURBANO CORAÇÃO, OS SALTIMBANCOS TRAPALHÕES (peça e filme que acaba de ser realizado com minha direção musical), NA BAGUNÇA DO TEU CORAÇÃO, ÓPERA DO MALANDRO EM CONCERTO, e idealizei TODOS OS MUSICAIS DE CHICO EM 90 MINUTOS como uma maneira de reverenciar o artista, o compositor, o autor. Mas falhei com minha responsabilidade, com Chico, falhei com o teatro e com a música.

Um áudio clandestino, gravado em meu camarim, me flagra num momento de enorme nervosismo, de destempero, de raiva. Nada justifica que invadam minha privacidade, considero a gravação um ato criminoso e a divulgação dela pelas mídias sociais é uma agressão à minha intimidade. Portanto, isto está sendo tratado em esfera policial e jurídica. Mas mesmo assim, por ter sido duro, descortês, arrogante e destemperado (o momento era muito inflamado), peço desculpas a todos que ouviram aquele Claudio Botelho sem compostura. E, se atingi alguém, mesmo tendo sido violada minha privacidade, peço novamente desculpas.

Minha exaltação e qualquer menção à obra do autor naquele dia são motivo de vergonha para mim neste momento. De qualquer forma, ouso crer que, por mais desatroso que tenha sido o acontecimento, o teatro ainda é um espaço que pode levantar debates nacionais de extrema relevância e repercussão. O teatro é sagrado e será sempre um espaço livre, de troca de ideias e de respeito às diferenças. Assim espero e por isso torço.

Envergonhado por ferir um estatuto sagrado do Teatro – respeitar o autor e público –, tenho obrigação de invocar novamente a única palavra que me parece oportuna neste momento: perdão.

Sinceramente, Claudio Botelho

(com informações de Estadão Conteúdo)

Fonte: VEJA SÃO PAULO