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Dino Altmann: guardião das pistas

Quem é o médico paulistano que cuida do piloto Felipe Massa

Por: Daniel Nunes Gonçalves - Atualizado em

Um telefonema na manhã do último dia 25, um sábado, levou o médico Dino Altmann, 53 anos, a cancelar a viagem que faria, dois dias depois, a Indianápolis, nos Estados Unidos. Ele se preparava para participar de uma mesa-redonda com especialistas em atendimento de emergência nas pistas quando Raffaela, mulher do piloto de Fórmula 1 Felipe Massa, lhe fez uma convocação urgente. Durante os treinos para o GP da Hungria, o paulistano da Ferrari fora atingido na cabeça por uma mola que se soltou da Brawn do conterrâneo Rubens Barri-chello. Altmann comprou passagem para o primeiro voo com destino à Europa, desembarcou às pressas em Budapeste, correu para o hospital militar AEK e logo se integrou à equipe médica. Por ordem da Ferrari, ganhou o status de ser o responsável por passar boletins à imprensa internacional. Só retornou a São Paulo nove dias depois, na segunda (3).

Durante todo o tempo de sua recuperação em São Paulo, Massa contará com os mesmos cuidados especiais que Altmann lhe dispensa há onze anos. "Ele era um colega de autódromo que acabou virando nosso clínico de confiança", diz o ex-piloto Luiz Antonio Massa, o Titônio, pai de Massa. "Tem um diagnóstico preciso, o que ficou evidente ao tratar minha diverticulite anos atrás, e fez toda a diferença nos cuidados com o Felipe na Hungria." Altmann não assina contratos de longo prazo com os Massa nem com nenhum outro piloto que o procure no consultório do Itaim Bibi, que divide com sua mulher, a fonoaudióloga Elisa. Sua consulta custa 400 reais. "Ele se recusa a receber pagamento", afirma Titônio. "Minha relação com eles é pessoal", explica Altmann, que diz ter como principal fonte de renda sua formação original: a cirurgia oncológica e do aparelho digestivo.

Nas pistas, une suas duas paixões, o automobilismo e a medicina, especialmente o atendimento de emergência pré-hospitalar. Altmann correu de kart por quinze anos. Em 1990, passou a trabalhar no resgate do GP Brasil de Fórmula 1 e, em 2001, tornou-se diretor médico da principal corrida da América Latina. Ocupa o cargo até hoje, com 120 pessoas do Hospital São Luiz sob o seu comando durante a prova, entre elas os 32 médicos de pista. "Eu atribuo a ele o respeito mundial conquistado pelo atendimento médico da corrida de Interlagos", diz o urologista Pedro Rozolen, seu braço direito na direção da Fórmula 1. "Nunca o vi destemperado ou tratando mal a equipe." Em Interlagos, a dupla já atendeu campeões como Ayrton Senna, Michael Schumacher e Fernando Alonso.

Há quem questione o fato de Altmann não ser formado em traumatologia. Ele se justifica, dizendo ter aprendido na prática, tanto na pista como nos doze anos como plantonista de pronto-socorro. "Não há cidade com mais acidentes de trauma do que São Paulo", afirma. Parte de seu conhecimento foi adquirido na direção do atendimento de emergência da Stock Car, categoria de que cuida desde 1996. Ali, comanda os nove médicos que acompanham as doze etapas anuais da categoria pelo Brasil e acelera a 170 quilômetros por hora o Astra que serve como carro médico. "É preciso frieza na hora de salvar os amigos", admite o cirurgião, que já presenciou três mortes em corridas. "Foi um alívio ver que ele me tirava das ferragens no acidente que sofri na Stock Car em Buenos Aires, em 2006", lembra o ex-piloto Gualter Salles. "Sua competência é comprovada."

Além de ser o preferido dos pilotos, Altmann é um dos dezesseis especialistas da comissão médica da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), que se reúne quatro vezes por ano para discutir procedimentos de segurança. Uma das exigências do grupo foi o uso de luvas especiais para tocar nos carros com o novo sistema kers, que usa baterias de alta voltagem. "Na reunião do dia 16 de setembro em Paris, na França, vamos estruturar o curso de medicina que o Instituto FIA pretende lançar no ano que vem para formar especialistas em automobilismo", conta ele. Algumas aulas serão rea-lizadas em São Paulo, permitindo que se formem na cidade outros guardiães das pistas.

Fonte: VEJA SÃO PAULO