Baladas

No Dia do DJ, profissionais paulistanos contam seus perrengues na noite

VEJA SÃO PAULO ouviu histórias de comandantes dos toca-discos, que precisam aturar de bêbados a pedidos descabidos de música

Por: Juliene Moretti - Atualizado em

Iraí Campos - Terraço Paulistano - ed. 2308
Iraí Campos: 39 anos em atividade e pedidos de mães de debutantes (Foto: Fernando Moraes)

Com a trilha sonora perfeita, os DJs podem tornar uma noitada inesquecível. Para isso, não basta apenas ter os hits da modinha no computador. “Existe um roteiro, a mixagem certa, a música que vai esquentar e a que vai manter o público na pista. Não é tão simples assim”, explica Iraí Campos, na ativa há 39 anos, especialista em flashback e dono das boates The History e Le Rêve. “Se a fila do caixa está longa, por exemplo, é porque há algo errado com o som”. Nesta segunda-feira, 9 de março, é celebrado o Dia Internacional do DJ pela Unesco. VEJA SÃO PAULO conversou com representantes da classe para contar os perrengues que já enfrentaram para cravar o nome nas principais baladas da capital.

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Com o objetivo de manter a turma na pista, os sets são calculados, o que pode dificultar os pedidos mais estranhos do público emplacarem. Entre seus gigs (como chamam as apresentações dos DJs), conta que os mais complicados são as festas de debutante. "Não pela aniversariante, mas pelas mães, que se tornam verdadeiras produtoras de eventos", conta. Durante as festas, elas têm o costume de palpitar e pedir axé no momento menos adequado.

“Elas ficam ao nosso lado, no pickup, escolhendo o que eu tenho que tocar em seguida”, reclama. Tem outro desabafo: quando um baladeiro decide ser o "técnico de futebol" da noite. "O cara levanta o dedo, assim como o técnico na beira do campo, e manda trocar a música", diz. Esse sinal nunca é algo positivo e irrita quem está na cabine sem entender. "Não faça!", diverte-se.

boss in drama
Boss In Drama: o que acontece na cabine, fica na cabine (Foto: Marcos Bacon)

Do time do eletrônico, Péricles Martins, o Boss in Drama, também sofre com os pedidos, digamos, inusitados. "Não adianta me pedir sertanejo. Eu não carrego comigo", explica. No entanto, tem sua técnica para evitar confusões. "Eu nunca sou grosso e até brinco", afirma. "Digo que tem algumas na fila, mas eu vou encaixar o pedido". Segundo ele, normalmente, a canção é esquecida pelo cliente. "O problema maior são os bêbados que insistem em conversar com você", conta. Sem jeito, ele bate-papo mas fica aflito. "Às vezes, preciso sair correndo."

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DJ desde 2007, o drama de Boss começou quando ainda era conhecido pelo nome de batismo, Péricles, em Curitiba, no início da carreira. "Era uma boate xexelenta", lembra. Ele era o segundo no line-up da noite e, por ser tarde, a galera estava já com o grau alcoólico mais elevado – incluindo o DJ que o antecedia. “Quando o set dele estava quase no fim, resolveu fazer xixi, ali mesmo na minha frente”, diz. O problema é que a cabine normalmente é apertado e esquenta muito. “Entrei lá e o cheiro de urina ficou muito forte.”

Mas não desistiu: tocou por pouco mais de uma hora, sofrendo com o odor. “A gente aceita tudo no começo”, conta. Ainda assim, Péricles tem boas lembranças dessa época. “Em uma das vezes, precisava de ajuda para tocar as bases do som para cantar”, conta. A única pessoa que estava por perto e sabia mexer na mesa de som era o produtor Diplo, conhecido por ter feito faixas de Madonna e Beyoncé. “Na época, ele não era tão conhecido”, diz. O produtor botou a mão na massa e ajudou o DJ iniciante. “Tenho certo orgulho dessa história.”

Lily Scott - QUÉDIZÊ
Lily Scott: sabotada pelo som (Foto: Ariel Martini)

Já para Lily Scott, que costuma bater ponto no Yacht, o "causo" mais marcante foi um mico. “Era uma festa de 2 000 pessoas de uma universidade”, lembra. Balada com bar liberado, todo mundo curtindo a madrugada e Lily entra em cena. "Público dançando muito, todo mundo com as mãos para cima", lembra. De repente, o som desliga: silêncio no espaço. Nervosa, ela olha para o marido, Rens Koele, que grita pela produção para resolver o problema.

"Foram dois minutos de silêncio total, o que num momento como esse, é uma eternidade", conta. O som voltou e a festa continuou. Ainda assim, ela não se perdoava com o que havia acontecido. "Dias depois, em uma conversa no bar com meus amigos, descobri que tudo isso foi causado pelo meu marido", diz. "Ele já estava 'altinho' por causa do open bar e tropeçou do fio." Rapidamente conseguiu se desvencilhar dos cabos e fingiu estar indignado gritando pela produção. "A sorte dele é que eu fui chamada de novo para a festa."

Fonte: VEJA SÃO PAULO