Crônica

Dia de Santa Zita

Por: Ivan Angelo

Crônica da edição 2370
(Foto: Divulgação)

O 27 de abril é o Dia de Santa Zita, já ouviram falar? Ela trabalhou durante quarenta anos na casa de um rico negociante de Lucca, Itália, oito séculos atrás. Contam-se dela histórias de bondades e encantamentos, inclusive a de que dois anjos desciam do céu para fazer suas tarefas enquanto ela cuidava dos pobres lá fora. É a padroeira das empregadas domésticas, e sua data é dedicada a elas. Já imaginou, leitor, o privilégio daquele negociante de Lucca por ter uma santa trabalhando em casa durante quarenta anos, e ainda com eventuais ajudantes celestes?

Nós, lá em casa, não contávamos com santas nem anjos, e talvez não precisássemos, pois tínhamos Angelo (anjo) por sobrenome, meu pai chamava-se Jesus e minha mãe, Divina. Os domésticos éramos nós, oito filhos e mãe, para o que fosse: cozinhar, lavar louça, arear panelas, limpar, varrer, tirar pó, fazer camas, cuidar da horta, das galinhas, encerar assoalho, lavar e passar roupa, engraxar sapatos, fazer compras... Só convivi com empregada quando me mudei para São Paulo.

Mandaram-me uma de Minas. “Você cozinha?”, perguntei na entrevista. Ela correu os olhos pela cozinha, para lá, para cá, e respondeu: “Só em fogão a lenha”. Êh, Minas. Mandei-a de volta. Outra que não passou da entrevista: quando eu disse que na casa não se podia fumar, ela sacudiu docemente a cabeça, dizendo: “Ah, se não fumar eu fico sem poesia”, e se dispensou. Tive algumas fugazes, não chegaram a esquentar lugar. Uma que varria o lixo para dentro dos ralos dos banheiros e da lavanderia. Outra que bebia as minhas cachaças, raridades que vinham de Minas. Tranquei-as à chave e ela passou a beber o álcool da limpeza com limão e açúcar. Outra, querendo melhorar a aparência das garrafas, “velhas, cobertas de pó”, deixou-as de molho no tanque, todos os rótulos se descolaram, nunca mais se soube qual era de qual.

Algumas delas ficaram amigas, pode-se dizer. De uma, Claudete, levamos o filho pequeno ao Guarujá. Costumávamos descer na calma do meio da semana, e ele sumiu na praia por apavorantes vinte minutos. Afogado!? Sequestrado?! Fomos encontrá-lo abrigado sob um guarda-sol, 100 metros adiante, chupando um picolé que lhe deram de consolação.

Divertida foi a baiana Jane, que um dia recebeu do interior da Bahia um absurdo envelope com a fotografia de um morto em cima da mesa. Tirada no nível do tampo, a foto só tinha foco nos sapatos do morto; a cabeça e o entorno eram difusos. Não veio carta, talvez ninguém soubesse escrever, envelope sobrescrito no correio mesmo, quem sabe. Jane chorava alto, olhando a foto, dizendo “É pai, é painho”, e a patroa perguntava como é que ela podia ter certeza, e ela dizia que era, porque era, o pé era igual. “Mas como você pode conhecer se ele está de sapato, criatura?” E a criatura tinha certeza no coração, queria ir para lá. “Não vai, criatura, tem mais de uma semana que a carta saiu de lá...” E ela foi? Não me lembro. No fim não era o pai, era um parente.

A mais marcante foi uma senhora, Odete, se não me engano, fina, de fala culta, cabelos brancos precoces, rosto claro, sem rugas. A mãe havia trabalhado numa mansão, morreu, ela continuou na casa, educada desde pequena junto com um menino que amava piano e se tornou artista de fama internacional. Não foi adotada, criou-se lá, engravidou, saiu de casa envergonhada, nunca mais voltou. Ouvia na rádio Eldorado, em lágrimas, os concertos do meio-irmãozinho.

ivan@abril.com.br

Fonte: VEJA SÃO PAULO