Educação

Como é a rotina da melhor e da pior escola pública da capital

Em uma delas, as salas são pequenas e a infra-estrutura, precária. Na outra, há quadra de esportes coberta e biblioteca com teatro

Por: Daniel Bergamasco e Flora Monteiro

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Jardim Esperança, na Zona Sul: obra de 6 milhões de reais (Foto: Ivan Dias)

Uma escola tem os muros e paredes tão bem conservados, sem rabiscos nem pichações, que parecem reformados há alguns dias. Do lado de dentro, há quadra de esportes coberta, elevador destinado aos deficientes físicos e uma biblioteca equipada com teatro.

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No outro colégio, as salas são pequenas, pouco ventiladas, e a iluminação passa longe do ideal. Em vários trechos, a pintura está manchada ou descascada e, como a quadra é uma só, os garotos jogam futebol em um campinho de terra.

Em qual dessas duas instituições você matricularia seu filho? A escolha parece óbvia, mas as aparências, nesse caso, levam a equívocos. O endereço das boas instalações figura como a pior escola da rede pública da cidade no desempenho do 9º ano (8ª série) do ensino fundamental, segundo ranking do Ministério da Educação divulgado na última semana. Trata-se da Escola Jardim Esperança, nas proximidades do Jardim Ângela, na Zona Sul.

A outra é a Escola de Aplicação da USP, no câmpus da universidade no Butantã. Ela aparece como a mais bem colocada nessa série segundo a mesma avaliação, chamada de Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que leva em conta notas em uma prova de português e matemática e critérios como faltas. As contradições se explicam quando aos cenários descritos são somados os seus personagens.

Jardim Esperança, com esse nome tão sugestivo, foi inaugurada em janeiro de 2011, ao custo de 6 milhões de reais. Segundo docentes ouvidos pela reportagem, que preferem ficar no anonimato (veja o quadro abaixo), escolas vizinhas com lotação esgotada mandam para lá, com frequência, seus piores alunos.

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Escola de Aplicação, na Zona Oeste: instalações precárias (Foto: Mário Rodrigues)

“Alguns chegaram a jogar carteiras nos funcionários. É uma turma difícil de controlar”, diz a dona de casa Euzira Leite, avó de uma estudante. As aulas vagas são outro problema. “Meu filho começou aqui faz uma semana. Fiquei impressionado com a falta de professores”, relata o taxista Nivaldo dos Santos. Um número chama atenção: dos 61 mestres, só quatro são efetivos, já que os concursados evitam se fixar por lá — os temporários, por sua vez, saem quando encontram algo melhor. O governo estadual, responsável pela instituição, diz que trocou o diretor para melhorar o desempenho e implantou ali alguns de seus programas, como o de auxiliar em sala de aula em algumas turmas.

Mas os recursos humanos escassos são evidentes. Há apenas dois inspetores para 1.100 estudantes, muitos vindos das casas precárias dos arredores, entremeadas de vielas, onde o único colorido vem dos cartazes de candidatos a vereador colados nas fachadas.

Na Escola de Aplicação da USP, os estudantes nem parecem morar no mesmo planeta. Quinze dos 54 professores fazem ou já concluíram mestrado ou doutorado. Os salários variam de 6.000 a 15.000 reais, enquanto na rede estadual eles dificilmente chegam aos 2.500 reais.

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Dois terços das vagas nas séries iniciais são sorteados entre filhos de funcionários, sejam eles faxineiros ou diretores, e o restante entre paulistanos de fora da USP. A média é de 25 frequentadores por sala, ante os quase quarenta da Jardim Esperança. Os docentes planejam suas aulas em reuniões diárias e a grade inclui atividades como francês e ginástica olímpica.

O diretor, Felipe Tarábola, diz que a solução para a infraestrutura deficitária está a caminho. “Faremos uma reforma no fim do ano”, promete. A comparação de universos serve como lição também para as particulares. “Os pais se prendem muito a detalhes, como quadras magníficas, na hora de escolher onde matricular a criança, mas a estrutura pedagógica é o que mais interessa”, afirma a psicóloga Rosely Sayão, consultora de diversos colégios da capital.

Responsável por um terço do PIB brasileiro, São Paulo está em terceiro lugar no ranking do ensino, perdendo para Minas e Santa Catarina, no 9º e também no 5º ano do fundamental. No ranking geral da rede pública na capital, as notas médias avançaram pouco — de 5 para 5,1 no 5º ano e de 4 para 4,2 no 9º. Para o ensino médio, são divulgadas apenas as médias estaduais (nesse caso, a nota paulista também praticamente não evoluiu, passando de 3,6 para 3,9).

Segundo os especialistas, limitações que não são combatidas de forma adequada explicam a situação. “Uma das principais questões é que os alunos da rede pública vivem em ambiente muito mais carente e violento do que décadas atrás, mas os educadores não são preparados para lidar com esse quadro”, afirma Neide Noffs, professora da Faculdade de Educação da PUC-SP.

DIFERENÇA ABISSAL

Os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) na capital

AS MAIORES NOTAS DO 9º ANO...

Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da USP (Butantã) - 5,8

Emef Prof. Leão Machado (Vila Liviero) - 5,7

Emef Mal. Deodoro da Fonseca (Caxingui) - 5,7

Prof. Ennio Voss (Brooklin Paulista) - 5,7

Prof. João Borges (Vila Gomes Cardim) - 5,7

Emefm Guiomar Cabral (Jd. Cid. Pirituba) - 5,6

Emef Bartolomeu Lourenço de Gusmão (Vila Santa Isabel) - 5,6

Emef Des. Joaquim Candido de Azevedo Marques (Santo Amaro) - 5,6

Seminário Nossa Senhora da Glória (Ipiranga) - 5,6

Conselheiro Ruy Barbosa (Horto Florestal) - 5,6

...E AS MENORES NOTAS

Prof. Dogival Barros Gomes (Jardim São Carlos) - 2,9

Lucas Roschel Rasquinho (Colônia Paulista) - 2,9

Prof. Samuel Morse (Jardim Santa Bárbara) - 2,9

Dona Prisciliana Duarte de Almeida (Parelheiros) - 2,9

Profa. Maria Augusta de Moraes Neves (Americanópolis) - 2,9

Prof. Ronaldo Garibaldi Peretti (Vila Anglo Brasileira) - 2,8

Prof. Mauro de Oliveira (Perdizes) - 2,8

Prof. José Vieira de Moraes (Rio Bonito) - 2,7

Profa. Josephina Cintra Damião (Chácara Nani) - 2,4

Jardim Esperança (Jardim Santa Margarida) - 2,1

DOIS MESTRES, DUAS REALIDADES

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José Carlos Carreiro: professor da Escola de Aplicação da USP (Foto: Mário Rodrigues)

UM PROFESSOR DO COLÉGIO TOP...

Com a palavra, José Carlos Carreiro, de 53 anos, docente de geografia na Escola de Aplicação da Universidade de São Paulo

Motivação na carreira: “Ver as pessoas aprendendo é emocionante”

Salário: 6.500 reais, por quarenta horas de trabalho semanais

O melhor da Escola de Aplicação: a rotatividade dos professores é pequena e as reuniões diárias com os docentes possibilitam construir efetivamente uma linha de trabalho

O pior da escola: a infraestrutura do prédio precisa ser melhorada

Formação: aluno de escola pública por toda a vida, ele se graduou em geografia na USP e é mestre em psicologia da educação pela mesma universidade

Onde mora: no Butantã, em uma casa com três quartos

Viagens que já fez: “Conheço o Brasil todo, de Porto Alegre a Belém. Já fui para Inglaterra, França, Portugal e Espanha, entre outros países”

Último livro que leu: "Xogum — A Gloriosa Saga do Japão"

Última peça de teatro: “Não gosto. Faz tempo que não vou”

Último filme: "Valente". “Vou ao cinema semanalmente e vejo muitas histórias infantis com meus filhos”.

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Professor da Escola Jardim Esperança: anonimato foi pré-requisito para a entrevista (Foto: Veja São Paulo)

...E OUTRO DO MAIS PROBLEMÁTICO

Profissional da área de humanidades, que só topou a entrevista sob a condição de anonimato, conta sua rotina

Motivação na carreira: “A estabilidade no emprego. O resto é bem desmotivante”

Salário: pouco mais de 2.000 reais, por cerca de quarenta horas de trabalho semanais. “Penso em parar daqui a alguns anos, nem que seja para vender laranja na rua e ganhar melhor”

O melhor da escola Jardim Esperança: “Tem tudo de que um aluno precisa na estrutura, de biblioteca boa a elevador”

O pior da escola: “Faltam funcionários, ou seja, é oca de material humano, um elefante branco. Além disso, muitos dos alunos eram os piores das instituições vizinhas”

Formação: estudou em escola pública, cursou faculdade particular e nunca fez pós “por falta de dinheiro”

Onde mora: no Jardim Ângela, em um pequeno apartamento de dois quartos

Viagens que já fez: “Brasília, Minas e Bahia. Nunca fui para o exterior”

Último livro que leu: “Não me recordo do nome, mas tinha a palavra ‘feitiço’ no título”

Última peça de teatro: “Faz tempo. Nem me lembro”

Último filme: “Não tenho tempo de ir ao cinema”

Fonte: VEJA SÃO PAULO