Criminalidade

“Encontrei meu irmão caído sobre o próprio sangue”, diz dono de bar

Pela primeira vez, Juvenal Teixeira de Sousa dá detalhes sobre o pior ataque da chacina que deixou dezoito mortos na Grande São Paulo

Por: Adriana Farias - Atualizado em

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Homenagem aos mortos na chacina: cartaz erguido em frente ao estabelecimento de Juvenal em Osasco (Foto: Adriana Farias)

Após uma semana da chacina que vitimou dezoito pessoas na Grande São Paulo, familiares fizeram uma missa na noite desta quinta (20) em frente ao bar do Juvenal, no bairro Jardim Munhoz Jr, em Osasco, onde oito pessoas morreram e outras duas ficaram feridas. Antes do ato, Juvenal Teixeira de Sousa, de 34 anos, proprietário do estabelecimento, conversou com VEJA SÃO PAULO e relatou detalhes da “pior cena” que presenciou na vida.

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“Encontrei meu irmão caçula, de 19 anos, caído sobre o próprio sangue, atrás do balcão”, conta. “Veio um desespero”. O jovem trabalhava com o irmão no bar e estava realizando um sonho: a construção da casa própria. Confira o depoimento de Juvenal:

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Missa: Juvenal Teixeira de Sousa pede justiça em ato que vitimou oito pessoas em seu bar (Foto: Adriana Farias)

“Eu estava em casa descansando quando por volta das 20h30 de quinta (13) um rapaz bateu na porta de casa. Ele falou sobre os disparos, alertando que o meu irmão (Thiago Teixeira de Sousa, de 19 anos) teria sido atingido. O Thiago trabalhava comigo atendendo os clientes no turno das 14h às 22h30. Eu ia entrar só mais tarde, das 23h até o último cliente.

Após a notícia, corri em disparada para o bar junto com a minha namorada Alcione. Foi a pior cena da minha vida. Quase todos que morreram eram meus amigos, como colegas de escola.

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Entre tantos corpos caídos a primeira coisa que eu fiz foi procurar o Thiago. Em um olhar de pânico não conseguia encontrar o meu irmão e me veio a certeza de que ele tinha escapado, ou mesmo saído para comprar um lanche ou trocar um dinheiro, como costumava acontecer, mas não.

Quando abri a portinha do balcão do bar encontrei ele estirado no chão sobre o próprio sangue com o celular na mão. Eu virei o rosto dele e gritei: está morto! Toquei o coração, mas parecia palpitar. Veio um desespero de um jeito que, se me mordessem, eu não sentiria dor. Um frio no corpo, uma falta de força, não sei explicar. Chutei uma cadeira e berrei o quanto eu pude tentando entender aquilo.

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Juvenal Teixeira de Sousa: dono de bar em Osasco onde oito pessoas foram mortas (Foto: Avener Prado/Folhapress)

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Colocamos o Thiago no carro e partimos para o pronto-socorro de Mutinga. Em meia hora veio a notícia de que ele estava morto. O meu irmão era um menino cheio de sonhos. Chegou do Piauí para São Paulo há dois anos. Eu estou aqui desde 2000.

Eu o convidei para trabalhar comigo com um salario de 1 000 reais. Ele estufou o peito e ficou muito entusiasmado com a oportunidade. Era muito esforçado. Podia vir a pessoa mais folgada no bar que ele tratava com respeito. Até um ano atrás ele morava comigo em um sobrado de três cômodos, dormia no sofá. Aí ele se mudou com a namorada para casa da sogra e no mesmo terreno estava construindo o sonho dele: a casa própria.

Ele subia o morro carregando cimento atrás de cimento com sol ou chuva. Às vezes eu até adiantava o salário para ele conseguir comprar o material que faltava para obra e pagar os ajudantes.

Era um menino muito educado e respeitoso. Sabia levar bronca e crescia com elas. Assim como a maioria das vítimas dessa chacina, ele era trabalhador, mas morava na periferia onde não existe segurança. Aqui somos alvo.

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Esta difícil dormir. Quando acordo, eu tenho a sensação de que ele vai voltar a qualquer hora, que só foi viajar.

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Osasco: após uma semana da chacina, familiares realizam missa em frente ao Bar do Juvenal (Foto: Adriana Farias)

Após a notícia da morte, ainda tive que retornar para o bar e enfrentar toda aquela cena de sangue, pois a polícia e a perícia precisavam de informações sobre as vítimas. Eles chegaram em trinta minutos, mas poderia ter sido em dez, pois o posto é aqui do lado. A ambulância veio só depois de uma hora e trinta minutos. Por isso, alguns familiares começaram a retirar os corpos por conta própria e levar para o hospital.

Por volta das 2h30, começamos a limpar o bar. Foram mais de dois baldes cheios de sangue. Foi triste ver que apontavam o bar, que tenho a oito anos, como um suposto local de venda de drogas. Claro que iam falar isso, um estabelecimento do lado de uma favela. Mas aqui é um típico bar de periferia, ou seja, é um ponto de encontro da comunidade, das famílias e dos amigos.” 

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Se uma pessoa fica dois dias sem dar uma passada aqui que seja para dar um abraço, a gente já vai atrás querendo saber o que aconteceu. Agora é tentar seguir a vida em frente. Pretendo reabrir o bar nesta sexta (21), pois preciso trabalhar e é de onde vem meu sustento. Queremos justiça e que os criminosos sejam presos.”

Fonte: VEJA SÃO PAULO