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Avanço da dengue na capital muda rotina dos paulistanos

Com quase 2 000 casos confirmados, a metrópole vive o pior surto de dengue da história

Por: Silas Colombo

Repelente
Andrea Kherlahiane as filhas, Isabela e Vitória, de 2 anos: calça comprida e repelente para ir à escola (Foto: Mario Rodrigues)

Nestes tempos difíceis, decorrentes da maior estiagem de que se tem notícia por aqui, várias pessoas começaram a guardar água em casa para se proteger das constantes interrupções no abastecimento. Muitas vezes, o líquido acaba sendo estocado em tambores, sem os devidos cuidados de armazenamento. Esse é um dos principais fatores que vêm provocando um grave efeito colateral: o maior surto de dengue da história da cidade.

Do início de janeiro até a última quinta (12), a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) contabilizou 2 708 notificações e 1 833 pessoas infectadas. O número supera em 92% o total registrado no mesmo período do ano passado. “A demora para diagnosticar e catalogar os casos ainda pode esconder um quadro pior”, diz Esper Kallás, infectologista da Faculdade de Medicina da USP. O monitoramento semanal feito pela SMS mostra um crescimento exponencial do problema, um indicativo de que o drama pode ficar maior. “O pico do contágio será em abril”, prevê Kallás.

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Nos três primeiros meses de 2015, com a combinação de calor intenso e pancadas de chuva, as condições climáticas ficaram ainda mais propícias à proliferação das larvas do mosquito Aedes aegypti, o transmissor da dengue e da febre chikungunya. Colabora também para agravar a situação o início tardio das ações de prevenção do poder público. Na Zona Norte, por exemplo, a região mais afetada, ocorreu nas duas primeiras semanas do mês passado um apagão no serviço dos carros da prefeitura que ajudam no controle da doença. Essas viaturas carregam agentes de saúde, equipamentos e cartilhas de informação, entre outras coisas.

Responsável pela área, a Coordenação de Vigilância em Saúde (Covisa) assumiu que, por um problema burocrático, os 350 veículos que fazem esse e outros trabalhos de fiscalização sanitária deixaram de circular naquele período. Uma auditoria interna revelou irregularidades na contratação da frota. As falhas abrangem três contratos firmados sem concorrência pública entre 2012 e 2013, que somam 37,4 milhões de reais. O órgão rompeu esses acordos e a empresa responsável, a Sersil Transportes, tirou seus automóveis de circulação. A prefeitura fez nova licitação para achar outro fornecedor e reforçou o contingente com 32 viaturas da Defesa Civil.

Viaturas
Viaturas de combate e prevenção à doença: apagão no serviço em fevereiro (Foto: Cesar Ogata)

Com a situação da doença saindo do controle e a falta de informações, espalhou-se na internet um post sobre o surgimento de um mosquito mutante que se reproduziria em águas sujas ou mesmo salobras. A coisa tomou tamanha força que o infectologista David Uip, secretário estadual de Saúde, divulgou uma nota em que classificava a história como absurda. Boatos à parte, o fato é que a doença já começa a mexer com a rotina dos paulistanos. O aumento da incidência fez com que alguns colégios incluíssem o repelente na lista de material essencial para os alunos.

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Na escola de educação infantil Evolve, no Morumbi, as crianças vêm untadas de casa, e o produto é reaplicado durante o dia. “Minhas filhas também usam camiseta e calça comprida”,conta a arquiteta Andrea Kherlahian, mãe das gêmeas Isabela e Vitória, de 2 anos. A precaução de Andrea intensificou-se no começo do ano, quando o número de pernilongos — e de picadas — aumentou consideravelmente. “No alto do prédio onde moramos, ainda dá para escapar, mas em áreas abertas, como no colégio, as meninas viram alvo fácil”, explica. A preocupação também está criando uma corrida pelo repelente nas farmácias. “Ainda não acabou, mas só temos os poucos potes que estão na prateleira, e os distribuidores têm dificuldade de repor o estoque”, diz Anderson Chaves, gerente da Drogaria Farma100, no Butantã.

A situação é bem pior na Zona Norte, que detém a maior incidência de casos a cada 100 000 habitantes. Ali, os próprios moradores tiveram de entrar na batalha contra os focos do mosquito. “Da sacada, procuro casas com tambores abertos e lixo no quintal e aviso às equipes da prefeitura”, conta o engenheiro Almir Jorge Coelho, que mora no 7º andar de um prédio na Fregueisa do Ó. A primeira vítima fatal da epidemia é da área, uma moradora de 84 anos, que morreu no último dia 6. Agentes de zoonoses fizeram a dedetização do lugar no mês passado, e foi intensificada a presença de equipes nas vilas do entorno. O bairro do Limão encabeça a lista de casos de dengue, com cinquenta registros por 100 000 habitantes, seguido pelo Jaraguá (47,5) e pela Brasilândia (30,4).

Desde o ano passado, a Secretaria Municipal de Saúde estabeleceu que os serviços públicos e privados de saúde devem realizar, em até 24 horas, a notificação compulsória dos casos suspeitos. Além disso, instaurou comitês locais de prevenção nas subprefeituras.Assim, as visitas são programadas com base no mapeamento de pontos críticos.O uso de nebulização pesada, o “fumacê”, porém, só ocorre em última instância, já que funciona apenas para eliminar mosquitos, sem o efeito prático de acabar com os criadouros de larvas.

Fumacê
Agente aplica o “fumacê” na Penha: o método não elimina as larvas do inseto (Foto: Wanessa Carvalho / Folhapress)

A crise da capital se repete em outros municípios. O estado registrou 44 140 casos entre janeiro e fevereiro deste ano. Em Rio Claro, por exemplo, o surto fez o time de futebol local ficar sem quatro jogadores e três membros da comissão técnica. No início de março, quando a equipe recebeu o São Paulo para uma partida do Campeonato Paulista, os atletas tiveram de usar repelente para entrar em campo. A equipe do Morumbi, no entanto, já estava acostumada com o produto. O centro de treinamento do clube, na Barra Funda, sofre com a infestação de mosquitos — não só o da dengue. 

Fonte: VEJA SÃO PAULO