Artes visuais

Curador analisa obras de artistas “sem galeria”

Ricardo Resende, diretor-geral do Centro Cultural São Paulo, comenta o trabalho de jovens artistas contemporâneos

Por: Livia Deodato - Atualizado em

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A profissão de artista contemporâneo pode ser muito ingrata. O sujeito sofre com a avaliação do público em geral, que muitas vezes não entende sua proposta de trabalho, e ouve frases como “até a minha avó poderia ter feito isso”. Também sofre com a falta de espaço e de críticos que legitimem o seu trabalho no meio de tantos outros.

A convite de VEJASAOPAULO.COM, o curador  Ricardo Resende, diretor-geral do Centro Cultural São Paulo (CCSP),  topou avaliar o trabalho de parte dessa turma, os selecionados para o  4º Salão dos Artistas Sem Galeria. Escolhidos entre 103 inscritos, dez artistas de todo o país expõem suas obras na Zipper Galeria e na Casa da Xiclet.

Os trabalhos dialogam entre si e apontam alguns temas comuns, como “a simbiose do homem com a natureza”, nota Ricardo. “Esse retorno à natureza é um elemento muito comum na arte contemporânea”, afirma. “A arte é reflexo do que se discute na sociedade, cuja preocupação atual é muito voltada ao meio ambiente e sua preservação.” As fotografias Exercícios de Reflexão (de 2011, R$ 4 000), de Aoleo, e a série Dormência (de 2012, R$ 6 000, de Layla Motta), são dois exemplos dessa natureza viva a que se refere o curador.

Outro ponto em comum são os registros do cotidiano. É o caso de outra obra de Layla, a fotografia Christopher e Marilyn (de 2012, R$ 1 600), que mostra um cowboy com ar melancólico em meio a uma sala entulhada de objetos, e a sequência de xilogravuras sem título, de Paula Scavazzini (de 2011, R$ 500), que apresenta cenas do dia a dia, como um homem caminhando pela calçada.

O trabalho que mais chamou a atenção de Ricardo, no entanto, foi Vigas de Madeira e Algumas Câmaras de Ar (de 2011, R$ 1 500), de Michelly Sugui. “Destoa dos demais por se aproximar do trabalho construtivo e ainda apresentar uma certa precariedade”, opina Ricardo. É feito de uma câmara de pneu de bicicleta, que sustenta uma estrutura de madeiras diferentes. “Há uma organização própria criada pela artista, ao mesmo tempo em que existe uma estética dos materiais utilizados e sutileza no uso das cores. Uma ideia simples numa estrutura que está funcionando”, completa.

Posto isso, Ricardo frisa a dificuldade em se prever quais serão as obras mais valorizadas daqui alguns anos.  “Grande parte desses artistas ainda produz de forma descompromissada com o mercado e deve procurar pela experimentação”, aconselha. O mercado, segundo ele, é instável. Por isso, alguns objetivos devem sempre ser perseguidos: “a vontade de ousar e criar trabalhos realmente bons e a vontade de procurar por editais e espaços para expor as obras”.

Fonte: VEJA SÃO PAULO