Rádio

Cultura FM: nova direção corta dezessete programas

Decisão da nova cúpula provoca polêmica musical e política

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Apesar da pequena audiência – ela é a 27ª colocada no ranking das 37 FMs da região metropolitana, segundo o Ibope –, a rádio Cultura (103,3 MHz) sempre ocupou uma posição de prestígio no dial dos paulistanos. A excelência de sua programação, que até o fim do mês passado mesclava atrações dedicadas à música erudita com outras de apelo mais popular, reúne um séquito de ouvintes qualificados e fiéis. Na última semana, os bastidores da emissora foram abalados por uma decisão do jornalista Paulo Markun, que há um mês assumiu a direção da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da Rádio e TV Cultura. Markun cancelou todos os programas que não eram dedicados exclusivamente à música clássica. Dezessete das 59 atrações não se enquadravam nessa proposta, entre elas o Jazz Concert, apresentado por Carlos Conde, o Todos os Cantos, com a cantora Fortuna, e A Canção Americana, de Vicente Adorno. Na TV Cultura, por enquanto, não houve maiores mudanças.

O impacto mais forte ficou por conta da extinção do Diário da Manhã, ancorado desde 1999 pelo jornalista Salomão Schvartzman. "Meu programa era líder de audiência e dono do maior faturamento da Cultura. Foi uma decisão ideológica", afirma Schvartzman, que como todos os atingidos só soube da decisão com 24 horas de antecedência. "O Jorge da Cunha Lima certa vez havia me alertado de que os russos da fundação queriam a minha cabeça", diz ele, referindo-se ao ex-presidente da Fundação Padre Anchieta, substituído em 2004 por Marcos Mendonça, a quem Markun sucedeu. Os tais russos, de acordo com Schvartzman, seriam ex-membros do Partido Comunista Brasileiro (PCB) que trabalhariam na fundação. Cunha Lima, que atualmente é presidente do conselho curador, não confirma a história. "Nunca falei de russo nenhum para o Salomão", diz. "Ele fazia comentários políticos e muitas pessoas entendiam que isso ia contra a missão da rádio. Mas não era contestado ideologicamente."

Segundo Markun, a reformulação da grade deve-se a um retorno às origens da emissora. "Não vou alimentar polêmica", diz ele. "A decisão é irreversível, envolve dezessete programas, não é personalizada e foi tomada para cumprir o estatuto da rádio, que nos manda tocar apenas música erudita." Schvartzman conta que recebeu uma série de telefonemas e e-mails de pessoas conhecidas em solidariedade pelo fim do Diário da Manhã, que ia ao ar das 8 às 9 horas, de segunda a sexta. Entre os que ligaram para ele estão o secretário estadual da Cultura, João Sayad, e a ministra do Turismo, Marta Suplicy. "Sayad me falou que nada tinha a ver com a decisão e Marta me deu sua solidariedade e disse que a retirada do programa do ar é um insulto à inteligência do ouvinte", relata Schvartzman. Marta confirma o teor do telefonema, mas Sayad não quis fazer comentários. Schvartzman recebia salário de 14.000 reais mensais. Ganhava ainda, segundo fontes da Fundação Padre Anchieta, 50% do faturamento bruto de seu programa, calculado em cerca de 100.000 reais.

Outra decisão controversa foi o fim dos blocos de comerciais. A partir deste mês, a Cultura FM vai contar apenas com apoios institucionais. "Muitos ouvintes se queixavam da publicidade excessiva", afirma a radialista Gioconda Bordon, que assumiu a coordenação do núcleo de rádio e internet da Fundação Padre Anchieta e teve o programa diário de entrevistas também extinto. Abdicar dos anúncios pode significar um aporte maior de recursos por parte do governo do estado. "A Cultura FM perde, só em comerciais já vendidos para o segundo semestre, 1 milhão de reais", diz o ex-diretor da rádio José Roberto Walker. "O departamento comercial projetava arrecadar mais 2 milhões de reais com a comercialização de espaços publicitários." Para 2007, o orçamento da Cultura FM é de 6,9 milhões de reais. Markun diz que pretende, com essas mudanças, tornar a Cultura FM semelhante à BBC-3 inglesa, cuja programação é voltada basicamente à música clássica.

Fonte: VEJA SÃO PAULO