Crônica

Tecnologia paterna

Por: Matthew Shirts

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(Foto: Attílio)

Ainda não li nenhuma biografia do ganhador do Prêmio Nobel de Literatura Gabriel García Márquez, embora tenha saboreado mais de um romance seu. Mas há anos ouvi relatar do seu pai uma história que me acompanha ainda hoje. Quem me contou foi o escritor — e compadre meu — Mario Prata, uma fonte rica de casos divertidos, ainda que sempre um pouco mineiros e suspeitos, claro. Segundo Prata, García Márquez foi criado longe do pai, primeiro pelos avôs e, depois, por outros familiares, até partir para a vida de jornalista e ficcionista que o tornaria lido no mundo todo. Só veio a conhecer melhor seu pai depois de adulto, quiçá na meia-idade ou mesmo posteriormente. “Agora que temos praticamente a mesma idade, eu e meu pai”, teria dito Márquez, “nós nos damos maravilhosamente bem.”

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Essa frase, “praticamente a mesma idade”, tornou-se um bordão entre mim e o Prata. E, com a minha própria meia-idade, não deu outra: aproximei-me do meu pai.

A tecnologia foi responsável, em parte, pelo estreitamento dos nossos laços. Garry Shirts, meu pai, era fanático por tudo o que facilitasse a comunicação humana, de computadores e internet a leitores eletrônicos e Facebook. Morava na Califórnia desde a década de 60, mas fora criado no interior em uma cidadezinha do estado de Utah. Desconfio que seu fascínio pela comunicação tenha a ver também com a infância afastada de centros urbanos. Ele soube da invasão de Pearl Harbor apenas dois dias depois do acontecimento. Estivera na montanha, caçando com meu avô. Contava sempre essa história.

Mas meu pai gostava sobretudo de gente e de culturas diferentes. Era psicólogo de formação. Seu domínio das novas tecnologias era sempre precário. Elas nunca foram um fim em si, mas um meio para melhor se comunicar. Ele é o único usuário que conheci na vida do Newton, por exemplo, um precursor do tablet, da Apple, capaz de reconhecer caligrafia. Isso no século XX. Meu pai levava aquilo para cima e para baixo, sempre anotando alguma ideia nova com a canetinha própria. Carregava-o em uma bolsa de couro, como as das mulheres, apesar das constantes gozações. Perdeu uns três. A cada um que perdia ficava doente. Lembro-me do último Newton. Meu pai o deixou em cima do nosso carro em um posto de óleo diesel (foi a fase de automóveis a óleo diesel) numa autoestrada no meio do deserto durante uma viagem familiar. Ao voltar com o pé na tábua para a estrada, o aparelho voou e foi engolido por um caminhão que vinha logo atrás. Não podia rir.

A melhoria da telefonia mundial ajudou a me aproximar do meu pai. Nós nos ligávamos quase todos os dias. Comentamos os resultados do futebol americano, que eu podia acompanhar pela internet. Falamos de política. Torcemos pelo Obama. E, escondido da minha mãe, elogiamos Bill Clinton e Arnold Schwarzenegger. Se vivo fosse, estaríamos falando da Olimpíada. Muitas vezes pensei na frase do Márquez: “Agora que temos praticamente a mesma idade...”.

Nos últimos anos da sua vida meu pai se tornou fanático pelo aparelho de leitura digital, o Kindle, e por andar a pé (quem herda não rouba). A família toda se preocupava com ele. Afinal, aos 70 e muitos anos de idade ele saía de manhã pelas ruas, a pé, lendo o Kindle. Por vezes me telefonava do celular durante o caminho. Fingia que era para recomendar o livro do momento. Mas desconfio que fosse mais uma desculpa para curtir a tecnologia. Ele dizia: “Veja que coisa maravilhosa, filho! Eu a pé no meio da rua na Califórnia e você no Brasil, em São Paulo! Onde você está neste instante? No ônibus! Fantástico! Eu na rua e você no ônibus... em hemisférios diferentes! E dá para conversar! Não é um milagre? Não é inacreditável?”.

O pior é que concordo com ele. É um milagre. Serei eu, garanto, o primeiro na fila quando lançarem um celular capaz de completar uma ligação para o céu.

e-mail: matthew@abril.com.br

Fonte: VEJA SÃO PAULO