Crônica

Nós e o pódio

Por: Ivan Angelo

Crônica - Eu e o pódio
(Foto: Negreiros)

Aderi, mas não tenho o hábito de frequentar o Facebook. De vez em quando, sei lá, mês, meses, passo pela página pé ante pé para dar uma espiada, sem levantar poeira. Se a pessoa não se cuida fica exposta demais, é meio trocar de roupa com a janela aberta, coisa assim. Na última passada, tinha um Álvaro me procurando. O sobrenome não deixava dúvida: era ele, ex-colega de trabalho de mais de sessenta anos atrás. Sessenta e tantos anos!

Ele havia lido uma crônica minha que falava da interminável missão da repartição pública federal onde nós dois trabalhamos, de construir três ramais de estradas de ferro, obras a cargo de empreiteiras que não deitaram um trilho sequer nos dezessete anos em que bati ponto lá. Álvaro quis só dar um alô, saber se me lembro dele.

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Sim, eu me lembro. Era um apadrinhado que raramente aparecia, família de dinheiro, tinha carro sem ser formado ainda, universitário tardio de uns 24 ou 25 anos. Naquele 1952 em que se realizavam em Belo Horizonte os Jogos Universitários, populares e disputadíssimas olimpíadas nacionais de estudantes, ele competia por medalhas em três modalidades: corrida de 400 metros, creio, vôlei e natação. Estava no último ano de engenharia, era vermelhão, grande, meio peludo, ruivo, refulgia nos uniformes de competição.

Gostava de contar vantagem. Uma das lorotas, endereçada a mim, moleque de 16 anos que ensaiava ser escritor, era ter vencido uma disputa de natação contra o veterano campeão Fernando Sabino, no Minas Tênis Clube, valendo, se me lembro bem, um beijo da Eugênia Furacão, também chamada Eugênia da Pinta, cuja pinta não era visível para olhos apenas passantes.

Contou onde ficava a pinta, e a partir daí eu não conseguia ver a dona no footing da Avenida Afonso Pena sem pensar na pinta e nos seus arredores. Coisas de Minas, daquela Beagá doutros tempos. Álvaro deve ter inventado essa história, pois Fernando, bom católico, famoso precoce, não se meteria em folguedos públicos e vivia fora do país havia anos.

Fui descendo a ladeira dessa história sem querer, pois o que o Álvaro me trouxe à lembrança não foi a pinta, mas os Jogos Universitários. Atraíam grande público, jornais, revistas e rádios davam destaque, multidões jovens se empolgavam. Acompanhei os de 1952, Álvaro não ganhou medalha; depois de formado, sumiu. 

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Seis anos depois, vieram os Jogos de 1958. Do tempo em que inauguraram a primeira sauna da cidade, com cascata e tudo, que acendia as imaginações. Ano em que terminou o mistério da pinta da Eugênia da Pinta. Deve ter sido nessa sauna que a pinta se tornou visível, popular e cobiçada. Os Jogos foram de novo um sucesso, no ano em que o Brasil ganhara seu primeiro Mundial de futebol, com espírito ainda amador, a bossa nova era uma onda, o rock and roll era uma onda, Lambrettas deixavam um rastro alegre à sua passagem, o presidente JK construía Brasília.

Tal era o prestígio da competição que ele encontrou tempo para comparecer. Era tempo de misses, pós-Martha Rocha e Adalgisa Colombo, e os Jogos elegeram sua rainha, uma piauiense de beleza suave e inesquecível, superior à delas. O mundialmente prestigiado Madrigal Renascentista do então jovem maestro Isaac Karabtchevsky cantou na festa de encerramento. Enfim, era um megaevento.

Hoje, quem ouve falar desses Jogos? É tempo de estrelas milionárias no esporte, tempo de pop stars em toda a mídia, tempo de investimentos comerciais no sucesso. Os Estados Unidos sempre tiraram sua força olímpica do esporte universitário. Mais vezes subiríamos ao pódio se aquele espírito tivesse sido preservado e desenvolvido.

Fonte: VEJA SÃO PAULO