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Crônica

Noite de autógrafos

20.jul.2012 por Ivan Angelo

A leitora, vistosa, usando óculos escuros num ambiente em que não eram necessários, se posta diante do autor sentado do outro lado da mesa de autógrafos e estende-lhe o livro, junto com uma pergunta:

 — O que é crônica?

O escritor considera responder com a célebre tirada de Rubem Braga, “se não é aguda, é crônica”, mas se contém, temendo que ela não goste da brincadeira. Abre a capa do livro, lê na tira de papel ali enfiada o nome da pessoa a quem daria o autógrafo e o que vê é um nome de homem, não o da pessoa que está à sua frente. Pretendia chamá-la pelo nome, seria um gesto simpático, mas... Responde com aquele jeito de quem falou disso algumas vezes:

 — É um texto de escritor, necessariamente de escritor, não de jornalista, que a imprensa usa para pôr um pouco de lirismo, de leveza e de emoção no meio daquelas páginas e páginas de dados objetivos, informações, gráficos, notícias... É coisa efêmera; jornal dura um dia, revista dura uma semana.

Já se prepara para escrever a dedicatória e ela volta a perguntar:

 — E o livro de crônicas, então?

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Ele olha a fila, constrangido. Escreve algo brevíssimo, assina e devolve o livro à leitora, pensando se seria mesmo uma leitora ou apenas uma presenteadora. Ela recebe o volume e não se vai, esperando a resposta. Ele abrevia, irônico:

 — É a crônica tentando escapar da reciclagem do papel.

Ela fica com ambição de estante, pretensiosa, quer status literário. Ou então pretensioso é o autor, que acha que ela merece ser salva e promovida.

A talvez leitora pega o livro, faz que sai, volta-se, e atira:

 — Mais respeito. A crônica é a nossa última reserva de estilo.

Sai, e deixa o autor amarelo como um parvo.

Sem tempo para se recuperar, ele tem diante de si um homem sem livro para autógrafo. O que o homem tem nas mãos, e lhe estende, é um livreto azul de cordel em que relata suas desventuras na cidade de São Paulo: enfrenta o gigante Borba Gato, ajuda a empurrar o batelão dos bandeirantes e se apaixona pela desnuda mulher saída do banho, no Largo do Arouche. O autor olha preocupado a fila, enquanto o poeta popular explica que o envolvimento com as estátuas significa a solidão do nordestino na metrópole. Nada a fazer senão pedir ao homem que deixe o endereço para conversarem mais tarde, de autor para autor.

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A fila anda. A mulher, suave e discreta, estende o livro e conta um caso de amor da juventude que gostaria de ver narrado em crônica ou conto. Entre sussurros e pedidos de desculpas, fala rapidamente do professor e da aluna apaixonados, nunca um encontro secreto, só fugazes conversas de pátio e corredores, ligeiros toques de mãos ao passar um caderno ou livro, olhares obrigados a fugir, ele casado, tudo impossível, separam-se, nunca aquilo esquecido, 35 anos, até que numa rede social se reencontram, ela casada, ele separado, volta tudo com força, não sabem ainda o que fazer. Sim, sim, vou tentar fazer uma história, diz o autor. Assina o livro, apressado:

 — Desculpe... A fila...

Passam amigos, os abraçáveis são abraçados, as beijáveis são beijadas, até que uma mocinha estende o livro para o autógrafo e cai no choro.

Chora, chora, não consegue falar, o pai e a mãe acodem, ajudam, alisam, contam: vieram especialmente do interior, onde ela leu, na escola, um conto “do senhor”, algo sobre um cego no museu, ah, “lindo demais”, é só o que a mocinha consegue falar. Quer ser escritora, mas a sensibilidade a atrapalha, diz a mãe, tem só 16 anos, precisa controlar a emoção. O autor concorda, passa-lhe a lição do poeta João Cabral, “não perfumar sua flor”, dá-lhe seu endereço e pede a ela que lhe mande o que escrever. A fila anda.

Ao final, livraria vazia, uma leve melancolia o envolve. Tanta entrega, de completos desconhecidos, falava-lhe dos mistérios da crônica.

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