Crônica

O mercadão à noite

Por: Matthew Shirts

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(Foto: Veja São Paulo)

Saio da estação de metrô São Bento, no centro, às 23h40 de quinta-feira. Não vejo ninguém. A rua está deserta, sem gente, sem carro, sem nada. A ausênciade movimento provoca uma sensação incomum. Não é medo, juro, mas, sim, uma espécie de alerta que ecoa através do corpo até os dedos. Estou ligado, como se dizia no fim do século passado. Atento.

Procuro o Mercado Municipal. É um dos meus pontos prediletos na cidade, movimentado, colorido e transbordando de coisas gostosas para colocar na boca. Mas nunca sei chegar direito, menos ainda à noite. Poderia tirar o iPhone do bolso e acionar o Google Maps. Afinal, foi essa sensacional ferramenta digital que me mandou descer do trem aqui, ainda na fase de planejamento da excursão, lá no computadorzinho de casa. Mas vejo adiante um posto policial. Considero mais prudente optar pelo método antigo.

— O mercadão? — diz o PM a meu pedido de informações sobre o caminho. — Está de carro ou a pé? A pé! — repete ele diante da minha resposta, com o tom de surpresa, mas nem tanto, de quem já viu de tudo, só gringo a caminho do Mercadão à meia-noite, ainda não.

— Desce a segunda à esquerda até o fim.

Entro na Ladeira Porto Geral, onde as vitrines de fantasias para festas e os homens a dormir debaixo das entradas das lojas, embrulhados em cobertores e caixas de papelão, dão à rua um aspecto de baile fantasma.

No fim da rua já começo a encontrar os caminhões carregados de laranjas. Alguns são antigos, deformados por décadas de uso pesado. Outros são novíssimos, grandes, lustrosos. Eles são descarregados por homens que puxam carrinhos. Levam caixas cheias de laranjas e trazem caixas vazias. Muitas destas são empilhadas nas calçadas, onde há também um jogo de baralho em curso, logo ali à frente.

Mas, curiosamente, tudo é feito quase sem barulho, mesmo o jogo, que conta, como se não bastasse, com uma pequena plateia. Poucos conversam. Quase todos falam baixo. A única frase que ouço e anoto é: “Ô, Cabeção, tem isqueiro?” Os movimentos são sistemáticos e repetitivos.

Continuo a andar, agora até a entrada do mercado. Ali, embaixo dos vitrais, o entra e sai é constante, mais próximo, agora, da madrugada. Quase todos puxam carrinhos. Há uma feira em frente, do outro lado da rua, com porções gigantes já encaixotadas. Ou são sacos grandes, de batatas e cenourase pepinos e couve-flor. A cena é milenar. Pouco difere de mercados de alimentos em Santiago do Chile ou em Tóquio ou Dubai. Dá trabalho alimentar uma cidade grande.

Dou a volta e me encontro na rua dos abacaxis. Famílias inteiras descarregam as frutas embrulhadas numa espécie de palha que toma conta de tudo. Demoro para entender a cena, que é linda. Tiro umas fotos do meio da rua. Vejo uma criança brincar soterrada em restos de plantas. Passa um casal de moto. Ouço o motorista explicar para sua menina, na garupa, do que se trata: “Abacaxi”.

Tiro o caderninho da bolsa e faço uma anotação para não esquecer a cena. Todos fomos atraídos pelo mercado, reflito. É dele que tiramos o sustento.

e-mail: matthew@abril.com.br

Fonte: VEJA SÃO PAULO