Crônica

Um americano na canoa

Por: Matthew Shirts - Atualizado em

VSPAULO
Crônica de Matthew Shirts: Um americano na canoa (Foto: Divulgação)

Ainda hoje me dá frisson pedir um “americano” no balcão da padaria. É um sanduíche, como se diz, de responsa. Traz, no nome, um bom humor tipicamente brasileiro. Lembro-me dos meus primeiros tempos na cidade, por volta de 1980. Tudo me fascinava na metrópole, mas talvez nada mais do que as padarias. Aprendi, junto com a língua portuguesa, que havia no cardápio o queijo quente e o queijo frio e, numa escalada crescente de ingredientes, o misto, o bauru e, no topo da cadeia alimentar, o americano. O nome diz tudo.

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O americano, como se sabe, é o povo do sanduíche exagerado. “Leva até ovo frito”, contei, com respeito, mais de uma vez, para os gringos novatos na receita. Havia no nome, achava eu, se não uma crítica, uma cutucada na cultura de consumo dos Estados Unidos. Pensei nisso dia desses, enquanto aguardava minha vez na fila do pão da Letícia, na Heitor Penteado, uma das muitas panificadoras que frequento por aqui. Já fui freguês regular da padaria da Rua Rodésia, na Vila Madalena, e da Sensação, na esquina da Teodoro Sampaio com a Fradique Coutinho. Mais recentemente, passei a curtir também a Villa Grano, da Rua Wisard, que traz um jeitão mais moderno de ser, sem falar da velha e boa Siapão, na esquina do colégio do meu filho, Samuel, de 9 anos de idade, na Amália de Noronha. Às sextas, os pais dos alunos se reúnem ali para discutir a pedagogia moderna e tomar umas cervejas, que ninguém é de ferro.

Não sei se você já notou, mas, para pegar o pão francês, do bom, ao menos, sempre tem fila. Não é um resultado apenas da demanda, pensei durante a espera. É que ele exige fornadas constantes. Quanto mais fresco, melhor. Quentinho, então... é uma iguaria. Mas esse não é o único motivo da espera, resolvi cá com meus botões. O pão francês precisa ser colocado nas mãos do freguês por um funcionário. Ao contrário de muitos alimentos nos dias de hoje, o negócio não pode ser embalado previamente, nem mesmo quando é vendido no supermercado. É frágil demais, também, para ficar à disposição do consumidor. Essa necessidade de atendimento personalizado contribui para seu frescor e charme. Pegar pão é um ato social em São Paulo e em boa parte do país.  Faz parte da cultura brasileira, em geral, e da paulistana, em particular.

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O nome, diz-se, é resultado do formato original, que data do tempo da II Guerra Mundial. Até então, o brasileiro dava preferência ao pão de estilo italiano, de trigo de grão duro. Mas a guerra cortou o suprimento do ingrediente. Passou-se a seguir uma receita feita a partir de trigo de grão mais mole, menos resistente, mais à francesa, em formato de baguete. Mas havia um problema: a baguete murchava com rapidez aqui na umidade dos trópicos e subtrópicos. Jogava-se fora, com frequência, um bom pedaço do pão. Solução: reduziram o tamanho até chegar ao formato que conhecemos hoje. Ficou o nome, pão “francês”, em oposição ao “italiano”.

Além de tudo é sustentável, concluí, sozinho, ainda na fila da Letícia. Não se desperdiça muito. Traz na sua história esse formato econômico, adaptado ao clima local. Resisti à tentação de pedir um americano no estabelecimento da Heitor. Não tenho mais idade. Nos dias de hoje, perco o confronto direto com um sanduíche de tamanha exuberância. Saudade do tempo em que poderia pedir um desses no pão francês, sem miolo, para viagem, apenas para ouvir o atendente gritar: “Sai um americano viajando na canoa!”.

Fonte: VEJA SÃO PAULO