Crônica

A Lábia do Vendedor

Por: Mathew Shirts

Ilustração - crônica - vendedor
(Foto: Altílio)

É sempre com expectativa que pego o trem da CPTM. Para chegar à Estação Pinheiros, que costuma inaugurar minhas viagens, é preciso atravessar a Marginal por cima, pela passarela. Não se sabe o que se vai encontrar do lado de lá, a começar pelo cheiro do rio. A sensação de olfato vai de uma vaga mas sempre suspeita neutralidade, na melhor das hipóteses, ao fedor pleno de um grande mamífero morto há mais de 72 horas em algum lugar ali perto. Depende do dia. Nesse, faz uma semana, estava mais para a segunda categoria.

Enquanto aguardo, a plataforma vai se enchendo. A lotação provoca fisgadas de ansiedade. Será que vai caber todo mundo? Finjo que estou absorto no smartphone. Mas é um disfarce. Na verdade, tento observar os tipos ou até mesmo fotografá-los secretamente.

Entramos no vagão. Há lugar para todos. Encontro metaleiros de meia-idade, crentes arrumados, torcedores gordos, vendedores de chicletes, velhos de boné. Os caminhos da humanidade se encontram ali no vagão: imigrantes que vieram da Europa, outros da Ásia, descendentes distantes da migração africana forçada, índios, eu mesmo.

Com o trem em movimento, mas antes de chegar à Estação Hebraica, aparece um sujeito magro, baixinho, com uma cara que me parece ser do Nordeste e coloca uma mala retangular de tamanho pequeno no chão do vagão enquanto pede num vozeirão a atenção de todos. É atendido. Dá a entender que vai tirar daquela mala algo capaz de mudar nossas vidas. O sujeito é carismático. Consegue silêncio no seu entorno.

O que seria? Um coelho? Uma Bíblia? Uma bomba? Coloca a mão esquerda na mala e retira dali uma cenoura. Puxa do bolso do casaco, com a direita, uma ferramenta. Com movimentos suaves, circulares e elegantes, começa a descascar a cenoura. A casca cai em tiras dentro da mala. Daí, o sujeito coloca a cenoura de volta e retira dali uma batata. Das grandes. Mostra como é fácil descascá-la, graças à engenhosidade da ferramenta. Uma espécie de magia. Os pedaços do tubérculo vão pulando todos direitinho dentro da mala.

O vagão inteiro se hipnotiza. A apresentação traz o carisma dos antigos informes publicitários das madrugadas da televisão,mas ao vivo e em movimento. O preço da ferramenta é igualmente atraente. São 2 reais apenas, ou três aparelhos por 5 reais. E, se houver alguma dúvida quanto à utilidade do produto, ela é dispersa com a ajuda de um repolho, triturado sem esforço diante dos nossos olhos, e sem que caia nenhum vestígio da verdura no chão do trem.

A figura se desfaz de todo o seu estoque com facilidadee desce do vagão comigo na estação do MorumbiShopping. É abordado na plataforma por um segurança da CPTM. Não é permitido comercializar nada nos trens, afinal. Ele abre a mala e mostra que nada tem para vender, apenas uma mescla de cascas de verduras cruas. Um cozido, antes de ir para o fogão, está solto na sua mala. Como se explica isso não sei. Mas confio na lábia do vendedor.

Fonte: VEJA SÃO PAULO