Crônica

Coisas muito estranhas

Por: Mário Viana

VSP Crônica Coisas muito estranhas
(Foto: Attílio)

Sentir nostalgia da década de 80 revela a idade. Quem vibra com cada objeto que aparece em cena da comentadíssima série Stranger Things obviamente guarda na memória os momentos idílicos da infância querida, que os anos não trazem mais. Quem estava no fim da faculdade ou já batalhava pela sobrevivência à custa do próprio salário — digamos, por exemplo, eu — não tem muitos motivos para suspirar de saudade. Pode até curtir uma festinha movida a Titãs, Boy George e Kid abelha, mas saudade matadora não rola.

É humanamente impossível sentir falta dos bancos lotados daqueles tempos. Qualquer coisa que você precisasse fazer nesses locais implicava longas fileiras humanas: sacar dinheiro — sempre com cheque —, pagar qualquer conta, transferir, receber, tudo. não havia fila única: você tinha de detectar algum office boy com toneladas de contas do pessoal da firma e cair fora. Filas preferenciais só existiam em algum conto de ficção científica.

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A garotada que anda pelas ruas usando um aparelho capaz de conectá-la ao mundo inteiro, caçar seres imaginários, baixar músicas, exibir vídeos e, eventualmente, até falar com a mãe nem imagina quanto era difícil ter um telefone em casa. A linha era um bem que devia ser declarado no imposto de renda. Para conseguir uma, havia que esperar os famigerados planos de expansão. Depois, aguardar “vaga” no seu bairro. Era coisa de anos e anos de espera por um mísero telefone — que, volta e meia, dava linha cruzada. Mudar de casa, mesmo que na mesma rua ou prédio, podia deixá-lo incomunicável por um bom tempo. Pasmem, crianças: o telefone só servia mesmo para ouvir e falar. Mais nada.

Nos anos 80 de verdade, as pessoas fumavam em qualquer lugar, incluindo corredor de hospital, restaurante, bar e avião. Era inevitável chegar em casa com as roupas e os cabelos cheirando a cigarro. Mesmo que você não fumasse, o mundo fumava por você. Alguns cultivavam o péssimo hábito de apagar o cigarro no pratinho de sobremesa ou na xícara do café. Ficava no ar aquele odor de tabaco molhado que só espantava a freguesia.

Outra praga daquela época, imposta a quem gostava de uma vidinha mais badalada: o vinho alemão da garrafa azul. A simples lembrança da palavra Liebfraumilch faz os fígados mais sensíveis se contrair de angústia. Ainda sem a concorrência dos tintos gaúchos, chilenos e argentinos, o vinho branco e semidoce era presença obrigatória em coquetéis, vernissages, casamentos e festinhas pernósticas. A ressaca no dia seguinte era infalível.

Para assistir a um filme, tinha de ir ao cinema. Juro. Na TV, só passava fita velha — chamar filme de fita era bem coisa de antigamente. Os anos 80 viram florescer o videocassete e, com ele, as videolocadoras. O filme enrolava, era preciso rebobinar e a qualidade nem sempre era das mais elogiáveis. Filme da moda não esquentava prateleira na locadora e você precisava entrar numa fila de espera lerdíssima até conseguir vê-lo. A geração do streaming, com todos os episódios de uma série disponíveis ao alcance da mão, acha que isso é história do século passado. E é, na verdade.

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Só tem boas lembranças daqueles tempos quem achava super natural seguir a moda da calça baggy, da saia balonê e do penteado Kim Basinger. E nem se importava de usar paletó com ombreiras. Deus do céu. Isso, sim, é que era coisa estranha.

Fonte: VEJA SÃO PAULO