Crônica

Protestos

Por: Ivan Angelo

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(Foto: Veja São Paulo)

Porque meu coração é um pote até aqui de mágoa, protesto contra a incompetência, a hipocrisia, a surdez e a indiferença, contra o ladrão que rouba meu salário, contra o deputado que furta meu imposto, contra o alto funcionário que forma quadrilhas para roubar nosso progresso, contra os partidos que nos partem, contra os dirigentes que vão para a França fazer propaganda da cidade e deixam seus desmandados comandando pancadarias que anulam a propaganda que foram fazer lá fora com nosso dinheiro, protesto contra a verticalização bagunçada da cidade, protesto pelo direito de termos transporte popular suficiente e barato, pelo direito de abrir o portão de casa sem ter um revólver apontado para a minha cabeça, de voltar para casa depois de um dia de trabalho ou uma noite de estudos sem tomar um tiro no peito disparado por um menor de idade e maioral de crimes, protesto pelo direito de falar ao celular na rua sem ser atropelado por um ladrão de celulares que vai trocá-lo por cinco pedras de crack, pelo meu direito de jantar à noite num restaurante sem a todo instante olhar receoso para a porta, de tirar um dinheiro no banco sem ser perseguido por ladrões e levar um tiro, de parar num sinal de trânsito sem o coração disparar à aproximação de qualquer motoqueiro vendedor mendigo drogado malabarista, protesto pelo meu direito de caminhar à noite pela cidade e eventualmente beijar a namorada nos locais propícios, protesto porque o governo deixou meu plano de saúde aumentar 16% sem explicações enquanto a inflação foi um terço disso, protesto contra o metrô cheio porque não se oferecem alternativas, contra as filas da saúde pública e os altos preços da saúde privada,contra a pizza mais cara do mundo, contra os noias assombrando nossos caminhos, contra os corruptos que querem atar as mãos dos procuradores públicos, impedindo-os de investigar seus crimes, contra a inércia geral diante dos pichadores, dos buzinadores, dos porcalhões das ruas, dos vândalos, protesto por não poder contemplar a beleza e a bênção de uma boa chuva sem ficar com medo de enchente porque obras não foram feitas, protesto porque as verbas aparecem para as arenas esportivas e para a propaganda oficial mas não aparecem para a saúde e a educação, protesto porque a Polícia Federal atira com balas de borracha e outras balas contra índios numa ação de reintegração de posse de uma propriedade que nem é dos alegados proprietários, protesto contra a sujeira dos rios urbanos, os buracos das ruas,as taxas para a conservação de estradas pela qual já pagamos dentro de outras taxas e impostos, contra os helicópteros voando regularmente em rotas não permitidas sobre nossas casas, protesto por pagarmos pelos silêncios e ruídos dos telefones, protesto contra a complicação morosa para adotar filhos enquanto crianças esmolam nas ruas, protesto contra manifestantes de passeatas que usam máscaras, contra a falta de presídios para bandidões e bandidinhos, contra as obras paradas onde nosso dinheiro se enferruja, protesto porque nossos representantes não nos representam, protesto porque está tudo desarrumado e é preciso começar a arrumar.

email: ivan@abril.com.br

Fonte: VEJA SÃO PAULO