Crônica

Paixão é sofrimento

Por: Ivan Angelo

Paixão é sofrimento crônica
(Foto: Negreiros)

Minha amiga confidencia, naquela hora em que os bares se fecham e todas as virtudes se negam, como poetou Carlos Drummond de Andrade, ou na hora neutra da madrugada, como anotou Rubem Braga: “Fulano é a minha paixão”. Comento, deixando claro que é uma provocação: “Quer dizer: ele te faz sofrer”. Ela rebate, quase indignada: “Como assim?”. Explico, lógico e, mais do que isso, etimológico, sem disfarçar um sorrisinho levemente malévolo: “Paixão é sofrimento”. Ela, defensiva mas incisiva: “Corta, cara. Paixão é amor”. Reafirmo: “Martírio”. Ela insiste, quase continuando: “Amor com sinal de mais”.

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Divirto-me com a polêmica: “Tortura”. Ela, como se tivesse posto só uma vírgula: “Mais que amor”. Resolvo explicar meu ponto: “Outra coisa é outra coisa. Estou falando da palavra antes da deturpação, da derivação. Quando ela queria dizer o que queria dizer”. Ela, em outro tom de “como assim”: “Como assim?”. Peço ajuda ao calendário: “Veja: Sexta-feira da Paixão. Não quer dizer sexta-feira do amor, quer? Nem sexta-feira do ‘mais que amor’, quer?”. Ela, enfraquecida: “Ah, isso é outra coisa”.

Eu: “Claro que é. É a palavra antes da viagem. Lá atrás, quando deram nome para aos Passos da Paixão, aos Cravos da Paixão. À Paixão de Cristo. Vida, Paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Paixão é sofrimento”. Ela, querendo me pôr na perspectiva dela: “A gente fala paixão para dar ênfase, é modo de dizer”. Eu, embalado, ideias atropelando-a: “No espanhol, pasionero é o padre que leva consolo aos que sofrem num hospital. A língua é irmã da nossa”. Ela, me chamando à razão: “Ê, cara, dá pra falar do presente? Da língua de todo mundo?”. Eu, teimoso, asnático: “Dá, claro que dá. Paixonite o que é?

Esse ‘ite’ aí não é diminutivo, é ‘ite’ de inflamação, de doença. Apendicite, otite, bronquite, bursite, artrite e vai por aí. Paixonite aguda, não se diz? Tem a ver com doença também. Aguda é quando a coisa é grave, precisa de tratamento. Apendicite aguda”. Ela, quase desistindo: “Ah, você quer é me zoar”. Eu, não desistindo, talvez levemente etílico, levemente enciumado, procurando a palavra no celular: “De jeito nenhum. A língua tem um passado, as palavras viajam, vão perdendo a roupa, mas o corpo fica. ‘Fulano é a minha paixão’, ora bolas.

Olha aqui no dicionário: primeiro vem o sentido de martírio, de tortura; depois, vem o sentido de vontade extrema, furor incontrolável, exaltação, cólera; depois é que vem, abre aspas, amor intenso a ponto de ofuscar a razão”. Ela, aproveitando a deixa, cruel: “Viu? É dessa aí que eu falo”. Eu, sentindo o golpe, fechando o celular: “Tem uma categoria no Código Penal: crime passional”. Ela, rindo: “Ciuminho, é?”. Eu, retomando, passando por cima da provocação: “Essa paixão de todo dia e por qualquer coisa tirou a força da palavra.

A paixão mesmo nos impede de ver e não se deixa ver por nós. Muitas vezes, o que vemos em nós como opinião, posição, ponto de vista, preferência, é visto por outros como paixão, e ficamos p. da vida com isso. Sabe Proust? Ele diz que nós só conhecemos as paixões dos outros; das nossas, sabemos por eles”. Ela, propondo a paz: “Então vamos falar de amor”. Eu, topando: “A paixão faz escravos, o amor faz parceiros”. Ela: “Falou, parceiro”.

Fonte: VEJA SÃO PAULO