Crônica

Minhas praias

Por: Ivan Angelo - Atualizado em

Minhas praias - Crônica de Ivan Angelo
Minhas praias - Crônica de Ivan Angelo (Foto: Divulgação)

Fiquei de falar de praias, antes que o verão terminasse. Minhas praias...  Ali deixamos para trás tanta coisa, somos mais nós mesmos do que no carro, no escritório, no banco, na igreja — quase natureza, quase nus.

Achei meio sem graça a primeira praia que vi, Marataízes, areias escuras, alguma coisa não batia. O conceito encaixou quando conheci Copacabana: “O mar bramia / E erguendo o dorso altivo sacudia / A branca espuma para o céu sereno”, como no poema de Casimiro de Abreu. Lá se vão 54 anos de nomes ensolarados, relembrados numa rede preguiçosa de sons e imagens.

Arpoador (aqui fui puxado da Pedra do Arpoador por uma onda gigante, escalavrado escarpa abaixo para a morte certa, e entre essa onda e outra escorreguei para cima, como dizem que só os mineiros sabem)

Leme, Ipanema, Leblon, São Conrado, Barra, Itacuruçá, Mangaratiba (corricando no trajeto do barco a motor para a Ilha Grande, onde nosso preso querido aguardava abraços, fisguei um grande peixe e não sabia o que fazer com ele, sem coragem para tirá-lo do anzol, e ele ficou lá, no fundo do barco, brilho de escamas me culpando, e não tive mais coragem de olhar para ele)

Abrão, Angra, Frade, Campeche, Ingleses, Jurerê, Santinho,Canasvieiras, Camboriú, Iguape, Ilha Comprida (70 quilômetros de areia contínua, onde o mar cobriu meu Fusca azul encalhado e, milagre, na maré baixa do dia seguinte salvamos o afogado e ele pegou, saiu andando)

Mongaguá, Itanhaém, Peruíbe, Boqueirão, Gonzaga, Gonzaguinha, Biquinha, José Menino, Prainha, Pitangueiras (aquele ir e vir de belezas na areia grossa e plana repetia o velho footing juvenil, com ofertas mais generosas aos olhos)

Enseada, Pernambuco, Bertioga, Iporanga (havia lá apenas uma pousada sem eletricidade, e a geladeira era a gás)

Maresias, Portinho de Ilhabela (uma moça bêbada de repente nadou peladona, ô alumbramento...)

Toninhas, Lázaro, Itamambuca, Maranduba, Sapé, Tenório, a deserta Cassandoquinha (onde um daqueles largados dos anos 70 me vendeu uma posse na beira do mar, depois perdida nos cartórios da vida)

Arraial do Cabo, Dunas de Cabo Frio, Geribá, Ossos, Ferradura, Ferradurinha, Azeda, Azedinha,João Fernandes, João Fernandinho, Tartarugas (quase deserta, e passava uma mulher vendendo incrível pastel assado), Rasa, Barra de São João (a casa da amiga Helena debruçava-se sobre o rio, de onde puxávamos siris no puçá), Rio dasOstras, Rio Vermelho, Chega Nego, Pituba, Amaralina, Armação, Farol da Barra, Inema, Itaparica (negros lustrosos desembarcavam nos ombros os passageiros dos saveiros que iam ficar no resort)

Morro de São Paulo, Taípe (em Trancoso, com as falésias vermelhas referidas por Pero Vaz de Caminha em sua carta ao rei dom Manuel: “grandes barreiras, delas vermelhas, delas brancas”), Espelho, Praia do Forte, Arraial d’Ajuda, Mangue Seco, Boa Viagem, Madeiro, Enseada dos Golfinhos, Pipa, Ponta Negra, Futuro, Cumbuco, Morro Branco, Canoa Quebrada (“Que cheiro de maconha!”), Lagoinha (dunas de areia vermelha, peixe com farofa vermelha) — e quantas mais, esquecidas?

Outras, em outras terras, outras águas, outras línguas: Areias Douradas de Varna, no gelado Mar Negro dos esturjões e do caviar; Capri, forrada de pedrinhas; a linda prainha de Isola Bella em Taormina: Siracusa, em cujo mar navegou Platão e velejou o apóstolo Paulo; Lido, tão falada, e feia como a Praia Grande; Herradura, no Peru, ferradura de morro pelado, sem verdes; Varadero, sem cubanos, mas com mojitos; Naples, Flórida, com seus albatrozes engolindo peixes no píer de espetacular pôr do sol; South Beach Miami, de homens que olham homens e casas art déco; a californiana Venice, com seus milhares de malucos belezas no calçadão; Long Beach até Santa Monica, dezenas de quilômetros de pistas de skate e bicicleta e campos de vôlei de praia; Pier 39, em São Francisco, “praia” sem areia em deques de madeira, com loirinhas avermelhando-se, refúgio de centenas de leões-marinhos desgarrados e feridos; Isla Mujeres; Cancún, de beleza fabricada e frescas areias; Algarve, Albufeira, Faro, e, sim, oh, sim, Cannes, Cap d’Antibes, Cap-Ferrat, Villefranche-sur-Mer, Nice, a Côte d’Azur com sua impressionante paisagem de seios nus.

Quantos verões mais, quantas praias? — perguntamos todos ao destino.

e-mail: ivan@abril.com.br

Fonte: VEJA SÃO PAULO