Crônica

Amores escolares

Por: Ivan Angelo

Crônica
(Foto: VEJA SÂO PAULO)

Dificilmente alguma lembrança será mais terna, brumosa e inapagável do que a dos nossos primeiros amores, brotação espontânea do início da vida fora do muro familiar, o comecinho de uma vida em sociedade — a primeira escola. O mundo se amplia nesse passo, transpomos as grades seguras da parentada e deparamos com o desconhecido ao redor, fascinados e amedrontados.

+ Outros progressos

O mistério da simpatia acontece quando nosso olhar encontra outro para apoio, segurança, e só então a falta da mãe assusta menos. Dia após dia, cautelosos, semana após semana, aos passinhos, mês após mês, confiadamente, ousamos compensar o amor ausente de mamãe com uma delicada amizade de dependências mútuas e temporárias. São amores, já? Talvez não. Ou sim. Quem sabe?

Em pouco tempo, três anos?, evoluímos dessa amizade compensatória para uma escolha mais objetiva, e é com interesse ainda obscuro que procuramos a mais bonita da classe. Por que teria de ser a mais bonita se não houvesse um objetivo, ainda que obscuro? Todos os meninos elegem sua bela; as meninas, seu fofo. Entram nesse jogo o encanto, a admiração, a empatia, o ciúme, o medo, a vergonha, a confusão, o silêncio, a exibição, o disfarce desajeitado — nossa biografia ganha seu primeiro objeto amoroso.

O meu chamava-se Maria Eugênia. Longa trança negra e única, rara então, enovelando-me, enovelando-se nas minhas primeiras letras e números. Por ela fui mata-mosquito no teatrinho da escola, não me coube papel mais relevante. Já contei em algum escrito, conto de novo. O programa federal de saúde pública incentivava nas escolas o estudo dos terríveis mosquitos anofelinos, que transmitiam febres mortais e tremores. Aprendíamos como se reproduziam, como combatê-los. Para reforço, encenava-se a vida de Oswaldo Cruz, o cientista que havia derrotado a febre amarela no Brasil no começo do século XX.

Quem ganhou o papel principal foi o Ney, baixinho estudioso. O papel de esposa dele ficou com Maria Eugênia, por ser a mais linda da escola. Tive ciúme, ódio do Ney: a certa altura dos ensaios ele ficava de mãos dadas com ela no palco! Eu me dispus a torcer pelos anofelinos naquela guerra encenada. Mas, quando perguntaram quem queria fazer o papel de mata-mosquito, levantei rápido o braço, para estar ao lado dela, protegê - la contra a febre. Foi por amor que aos 8 ou 9 anos fui mata - mosquito de Oswaldo Cruz. Ela nunca soube disso.

Na 5ª série teve a Olga, magra, magra, magra, e lindinha. Só que era eu seu objeto, e não pude — me perdoe, Olga — corresponder, coração ocupado pela trança negra.

No ano seguinte teve Maria Rita. Como me perturbavam seus olhares, como se avermelhavam minhas orelhas e rosto, como pulava meu coração! Pernas abrasadoras nas aulas de educação física, aquele fofo calção de balão procurando guardar segredos que os olhos já buscavam. Certeza de que foi ela quem escreveu escondido no meu caderno, durante o recreio, uma mensagem não assinada. Voltamos do recreio, e lá estava no meu caderno aquela coisa horrível maravilhosa, umas dez linhas em letra caprichada, falando de sua paixão, amor e silêncio. Seria fácil conferir a letra, mas e coragem? Nunca contei a ninguém, por vergonha da minha covardia. Ela parou de olhar, e eu não parei de... quê? ...amá-la? Palavra muito forte para aquele embevecimento. O mais moleque da classe era um poltrão em namoro.

Passadas essas intensidades silenciosas, meninos e meninas se procuram, seletivos e magnéticos, tímidos ou ousados conforme seu temperamento. E aí enveredam por um caminho que dura a vida inteira, uns mais, outros menos felizes; já maduros, uma vez ou outra se lembram daqueles primeiros amores, perfeição intocada pelo tempo.

ivan@abril.com.br

Fonte: VEJA SÃO PAULO