Crônica

A graça do footing

Por: Ivan Angelo - Atualizado em

Crônica - Ivan Angelo - 2338
(Foto: Veja São Paulo)

A mocinha de 13 anos e inglês precário veio me perguntar: “Tio, o que era footing?” Duas coisas: ela pronunciou “fótingue”, sinal de que realmente desconhecia a palavra que acabara de ler em uma crônica brasileira dos anos 50, e disse “era”, dando a entender que para ela se tratava de coisa extinta,tipo máquina de escrever ou anel de doutor.

— Vem de foot, pé, em inglês, e pronuncia-se “fúting”.

— Foot eu sei que é pé, mas footing? Pisando?

— Querida sobrinha, o sentido aqui dá uma escorregada, escorrega de “pé” para caminhada, o ato de andar a pé.

— Andar a pé não é walk?

— É, é também. Footing aqui não é verbo, é substantivo, é o ato de andar. Pode ter vários sentidos em inglês, mas esse aí do seu livro de crônicas é um lance brasileiro. A ideia é outra.

— Não tem sentido, tio. Aqui diz que elas foram “fazer footing alvoroçadas”. Como assim, “fazer” footing? Fazer o ato de andar? Alvoroçadas com o quê?

Expliquei o melhor que pude: que era um programa de jovens de tempos atrás, um desfile, uma paquera coletiva, feita a pé; as moças caminhavam por um longo corredor de rapazes e de olhares, formado em volta de uma praça ou ao longo de uma avenida. Era como passear no shopping, só que não havia shopping nem vitrines, o que havia para ver e escolher eram as pessoas namoráveis.

Fiquei devendo nessas explicações, mas era o que cabia para uma menina de 13 anos. Footing era mais do que isso, eram olhos, pernas, colos, cinturas, ancas ,balanço, cabelos, tórax, ombros, pescoços, bocas, peles, roupas, excitação, insinuações — por isso as moças da crônica iam para lá alvoroçadas.

A excitação de olhar era o programa, repetido toda semana, no mesmo dia e local. Havia outros locais, em outro dia da semana, e eram outros olhares. Sentimentos românticos eram despertados com aquele mínimo; eriçava a pele das moças o apenas saber-se destacada do grupo por um olhar caloroso, o perceber-se desejada, sensação cuja intensidade se esvaneceu, porque hoje o mínimo excitante é mais ousado. Provisoriamente casto, o programa mascarava significados de oferta e avaliação, de sedução e conquista — de promessas. A caça oferecia-se ao caçador sob a enorme placa “É proibido caçar”.

Rapazes tentavam ser engraçados, conquistar sorrisos, que valiam tanto quanto um olhar. Eram bobagens do tipo que sedizia para uma dupla de moças: “Ô de cá, pergunta pra de lá se eu posso falar com a do meio”; ou: “Seu irmãozinho tem telefone?”; ou: “Quantos anos você me dá?”

Eles escolhiam suas amadas, fugazes ou eternas, nesses desfiles de olhares. Era um jogo de subentendidos, teatralizado, porque a sociedade era mais fechada, assim como as pernas femininas, se é que me entendem. A ideia de moças desfilarem para a avaliação masculina é incompatível com a sociedade de hoje. Não há mais ingenuidades, embora os olhares de avaliação permaneçam, em outros cenários. As mulheres não mais se prestariam a ser avaliadas pelo olhar de um corredor de homens, e voltar, e passar de novo, sabendo qual era o jogo. Ou será que acreditavam, as caminhantes pelo corredor, que elas, sim, é que avaliavam e escolhiam os artigos da vitrine?

Concordo, sobrinha: footing já era.

email: ivan@abril.com.br

Fonte: VEJA SÃO PAULO