Crônica

A difícil arte

Por: Ivan Angelo

A difícil arte
(Foto: Negreiros)

Eu já joguei com craques. Com e contra. Pode-se dizer que todo perna de pau já sentiu o encanto e a humilhação de jogar ao lado de um craque, um artista da bola. O lugar e a circunstância em que esse improvável acontece é a pelada. A plateia é nenhuma, pois os meninos que aparecem se tornam participantes. De outra forma o perna de pau não teria vez nos times de seis, sete, dez ou onze para cada lado, escolhidos no par ou ímpar.

Nós, os pernas de pau, somos os últimos a ser escolhidos; o último pode entrar até mesmo depois de igualados os times, entra como um a mais em qualquer dos lados, onze contra dez, nove contra oito, pois a certeza é que não vai fazer diferença. Não passei pela suprema humilhação de ser o último dos últimos porque na defesa era valente, jogo duro, “arranca toco”, daqueles que não choram quando levam caneladas, nem festejam quando as aplicam. Tinha alguma utilidade, conforme o adversário.

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Mas falava de artistas. No campinho da fazenda de seu Juca, de terra dura, pedaço de um morro que não era usado nem pelos cabritos, havia dois craques, e eles é que estrelavam o par ou ímpar, disputado pelo dono da bola e pelo moleque mais velho. Os dois craques eram o Pitucha, menino mais preto do que os outros que havia naquele bairro de mais e menos pretos, e o Farinha, branco que nem farinha mesmo, filho do padeiro, que tinha vindo de São Paulo. As coisas que eles faziam com a bola não estavam no gibi, como se dizia, e o gibi era a revistinha em que os super-heróis operavam maravilhas.

É lentamente que alguém se vai descobrindo um perna de pau. Por tomar aquele drible que ninguém tomaria, é um perna de pau da defesa; por não conseguir enfiar aquele passe, é um perna de pau do meio de campo; por chutar o ar cara a cara com o goleiro, é um perna de pau do ataque. Perna de pau não tem conserto, é sina, é jeito. Por mais que treine, não terá a rapidez, a malícia, o controle necessário da bola, do espaço e do adversário para fazer a jogada fina, os dribles variados, o chapéu, a deixadinha, a cavadinha, a caneta, o voleio, a matada no peito, o bate-pronto — tudo é fácil para os craques; para nós, até o mínimo é uma dificuldade.

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O perna de pau costuma ser um cara legal. Não tem por que contar vantagem, zoar os adversários, estender para outros campos, sem trocadilho, uma fugaz superioridade. Gostam dele, mesmo os bons de bola gostam, e se tornam discretamente protetores se pinta um clima de gozação, pois sabem que ninguém é perna de pau por escolha. É sina.

Encontrei outros craques correndo atrás da mesma bola que eu, mais tarde, quando prestava o serviço militar no Centro Preparatório de Oficiais da Reserva. Corrijo: eu corria atrás da bola, a bola preferia correr para eles, como que seduzida, pois esse é o modo de ser das bolas com os craques. No CPOR, os dois cobras eram o Múcio, nome estranho, e o Wander. Quando jogavam no mesmo time, 8 a 0, 10 a 1 eram placares comuns. Uma sequência estonteante de zigue-zagues da bola; enquanto eles avançavam em linha reta rumo ao gol, deixava os adversários atarantados. Não me perdoo por ter tirado o Múcio de uma pelada com uma sola feia. Enquanto eu pedia desculpas, o Mel apontava o dedo para o craque no chão: “Não humilha, não!”. E eu disse baixo para ele: “Pode humilhar. Senão, qual é a graça de ser craque?”.

Fonte: VEJA SÃO PAULO