Crônica

Frases, apenas frases

Por: Ivan Angelo - Atualizado em

Crônica: Frases, apenas frases
(Foto: Veja São Paulo)

Às vezes, na lida de escritor, criam-se e anotam-se frases engenhosas que por enquanto não se sabe onde serão usadas, ou quando. Provisoriamente inúteis, elas vão parar num caderno, numa caixa, numa pasta, e ficam ali, inertes, à espera de uma história, de um personagem, guardadas ou se guardando, como noiva antiga, como bala de revólver, esperando seu momento de aparecer. Tenho também guardado algum desse troco miúdo, frases, apenas frases, que agora apanho numa dessas pastas para mostrar como funciona. Deem uma olhada.

Ao contrário do amor, que precisa do amor do outro para existir como amor, o ciúme tem força própria, não precisa do ciúme de quem é objeto de nosso ciúme. O que os homens têm de melhor são as mulheres.

Estou com uma sensação estranha no estômago; acho que foi alguma coisa que eu não comi.

Alguns anunciantes da televisão são primários; outros, primatas.

Dava-se tão bem com a mulher que, viúvo, passou a ser visto como amputado.

Sozinho como orelha de Van Gogh.

O domingo é um dia que não precisa do governo para funcionar.

Com que palavras pensa um surdo que não conhece as palavras?

Meu pai, bravo? Dou presente pra ele no Dia das Mães.

Sou meio romântico, não gosto de amores prêt-à-porter.

Nas revistas de celebridades e de produtos odontológicos, as pessoas estão sempre com os dentes à mostra.

Nos filmes históricos, não há inverno em Roma, vivem todos de saiote e vestidos leves, braços nus, seios oferecidos.

Pelo lago azul, deslizavam cisnes imitando pescoços de lorde inglês.

É mãe, é pai, é irmã, é prova, lição, nota ruim, tentação, ciúme, micos, traíras, espinhas, cabelo, roupa, tesão, falta de grana, decepção, dúvidas, desejos, frustrações, impossibilidades, ansiedade, futuro, vontade de chegar... — nossa juventude nos dá muito trabalho.

Zapeando, ele escolhia programas na televisão como quem cata coisas num lixão.

De manhã, ao olhar aquela cara de pão molhado no espelho, ensaio um sorriso, outro, vejo que ficou bem melhor, e procuro me lembrar disso durante o dia.

Tão feio que o chamavam de Elo Perdido.

Os fotógrafos antigos nos tratavam bem melhor.

Na vida, a gente tem muitas turmas: a do prédio, a da escolinha, a do colégio, a do bairro, a da faculdade, a do trabalho, mas tem de escolher bem mesmo é a da eternidade.

Eu sei quanto custa uma mulher que não vale nada.

email: ivan@abril.com.br

Fonte: VEJA SÃO PAULO