Crônica

Boa vontade

Por: Ivan Angelo - Atualizado em

Crônica: Boa vontade
Crônica: Boa vontade, de Ivan Angelo (Foto: Divulgação)

Dia 31 é o Dia da Esperança; dia  1° é o da Fraternidade Universal. Duas datas carregadas de boas intenções. Louvemos então as pessoas de boa vontade, as que cedem seu assento nos trens e nos ônibus às senhoras grávidas e aos senhores combalidos; louvemos os que recolhem em saquinhos de plástico o cocô dos cãezinhos que levam a passear por nossas calçadas já tão complicadas para os caminhantes; louvemos os que param seu carro para deixar pedestres atravessar as ruas, ainda que desatentos, ainda que errados, pois sua carne é frágil diante da metálica armadura dos motorizados; louvemos os que cedem passagem nas portas; os que, já tendo filhos, adotam crianças; o jogador de futebol que consola o adversário arrasado pela derrota; louvemos os motoristas que logo cedem passagem para quem tenta entrar à sua direita ou esquerda; as pessoas que ajudam cegos a atravessar os cruzamentos; os Doutores da Alegria, que vão aos hospitais brincar com as crianças leucêmicas, com os velhinhos deixados nos asilos, com todos os internados carentes de riso; louvemos os que param para ajudar acidentados; os que pacificam os exaltados; os jovens médicos que vão para os matos atender miseráveis que ardem de febre; louvemos os moradores que plantam nas árvores da rua onde moram os pés de orquídea que ganharam, para que elas desenvolvam ali a nova floração, em ambiente mais compatível com sua natureza; louvemos os feirantes que colocam mamões e outras frutas nas árvores próximas para alimentar os pássaros da cidade de poucos pomares; louvemos as senhoras Pituca e Natalina, que renunciam aos seus sábados de folga para ensinar patisseria fina às senhoras da comunidade de Paraisópolis; louvemos a todos que fazem trabalhos voluntários; as empresas que doam recursos para carentes; as crianças que doam os brinquedos que lhes deram tantas alegrias, ainda que o façam relutantes, porque é difícil abrir mão de afetos; os que prontamentes ocorrem necessitadas vítimas de tragédias; louvemos, caros amigos, até o pequeno gesto matinal de desejar bom dia às pessoas na rua.

Louvemos, porque são pessoas que fazem isso diariamente. Nós outros precisamos desses dois dias, do fim e do começo dos anos, para nos lembrarmos de que estamos em falta. São dois dias a nos empurrar para as boas ações, nós que temos descuidado dessa parte, e que mesmo nessas datas dedicadas a confraternizações temos considerado o 31de dezembro apenas o último dia do ano, dia da passagem, dia de cumprimentar a todos com votos de paz, saúde e alegria, dia de cantar a musiquinha dando adeus ao ano velho, réveillon, que tudo se realize no ano que vai nascer, vinho espumante, foguetório, beijos, muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender... Não exatamente o Dia da Esperança, ampla, geral e irrestrita.

Desde quando não nos lembramos de que o 1º de janeiro não é apenas a entrada do ano novo, com sua sobrecarga de comidas, bebidas, baladas, ressaca, ideias de fim e de recomeço, viagem, fugas? No Brasil, o dia é feriado desde a República do marechal Deodoro, que fez dele em 1890 o Dia Nacional de Paz. Pelo calendário litúrgico, comemorava-se então a Circuncisão do Menino Jesus, dia em que foi operado o santo pintinho, como está no evangelista Lucas: “E quando os oito dias foram cumpridos para circuncidar o menino, foi-lhe dado o nome de Jesus”. Depois do papa Paulo VI, esse ficou sendo o Dia da Fraternidade Universal. Quem pensa na fraternidade, em meio a tanto consumo?

e-mail: ivan@abril.com.br

Fonte: VEJA SÃO PAULO