Crônica

A cidade do futuro

Por: Matthew Shirts

Cronica - 2280
(Foto: Veja São Paulo)

“Peço que nos desculpem o atraso. Foi preciso consertar a iluminação aqui na cabine da aeronave. Agradecemos a sua paciência. O voo de hoje tem a duração prevista de nove horas e 51 minutos. Aterrissaremos na linda cidade de São Paulo, no Brasil, às 7h51 da segunda-feira, dia...”

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Ouvia a mensagem do piloto lá no fundão do avião. Aguardávamos a nossa vez de deixar a pista do sensacional Aeroporto de Dallas, no Texas. Estava eu mais do que pronto para voltar à nossa querida Sampa depois de três semanas pelos Estados Unidos, com a parada de sempre na casa da minha mãezinha. A fala do piloto americano, naturalmente, foi feita em inglês. A tradução é minha. (Parêntese: desde que o escritor Tom Wolfe baseou um livro inteiro, “Os Eleitos”, obra das mais brilhantes na história do jornalismo, no sotaque de um comandante de avião de carreira, passei a prestar atenção na fala cerimonial do início de todos os voos comerciais. Quem sabe me dá uma ideia. Sempre quis ser Tom Wolfe, afinal.)

O que me chamou atenção, no caso da fala no terminal do Texas, foi a palavra “linda”. Estaria o piloto da American Airlines tirando sarro da cara da nossa cidade? Não parecia. Não detectei ironia nenhuma no tom de voz, que não mudou ao longo do pronunciamento. Mas, convenhamos: se você tivesse apenas um adjetivo para descrever São Paulo, “linda” não seria o primeiro que viria à cabeça. O Rio de Janeiro é lindo. São Paulo é agitada, estimulante, caótica, gourmet, foodie, intelectualizada, cinéfila, tudo menos “linda”.

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Ali no avião, que já sobrevoava o Oceano Atlântico, desandei a pensar: o que a metrópole tem, afinal? Deve ser a capital que mais cresceu do início do século XX para cá. Sua expansão é espantosa. Vieram para cá italianos, libaneses, japoneses, espanhóis, portugueses e judeus de toda parte, sem falar dos migrantes que chegam do norte, centro e sul do Brasil. Querem viver aqui lésbicas, gays, músicos (vide a Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros), escritores, artistas e estudantes de todo tipo. Hoje, chegam pessoas da Bolívia e da Coreia. Todo mundo em São Paulo é de algum lugar, se não nesta geração, então nas anteriores. Basta perguntar.

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Aí, na poltrona 41-E, concluí: alguma coisa de gostoso a cidade tem. Seu crescimento é tamanho que, hoje, nossos planejadores trabalham com o conceito de “macrometrópole”. Basta aparecer em locais como a Sabesp, a Emplasa (Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano) ou a Secretaria de Negócios Metropolitanos que eles terão prazer em explicar essa história (pensando bem, talvez seja melhor ligar antes). A macrometrópole vai de Santos a Campinas, de Taubaté a Conchal. São 30 milhões de habitantes e 150 e tantas cidades. Responde por 72% da população e 82% do PIB do estado.

O resultado prático dessa nova aglomeração é interessante. São Paulo passa a disputar investimentos com as outras macrometrópoles do planeta, como Tóquio, Mumbai e a Cidade do México, as únicas maiores do que a nossa. Em outras palavras, as metrópoles gigantescas ganharam um papel próprio na era da globalização. Se for trabalhado com jeito, esse novo status internacional pode ser uma ótima notícia para São Paulo e, por tabela, para o Brasil.

Fonte: VEJA SÃO PAULO