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A crise que levou ao fechamento de lojas da Shoestock

Após quase trinta anos de atividade, a tradicional rede de calçados está prestes a encerrar a operação

Por: Ana Carolina Soares e Sophia Braun

Shoestock - Vila Olímpia
A flial da Vila Olímpia: fim das operações há duas semanas (Foto: Chello Fotógrafo/Estadão Conteúdo)

Na manhã da última quarta (23), ao entrar na unidade de Moema da rede Shoestock, a estudante Bárbara Silveira quase não reconheceu o espaço que frequenta há pelo menos cinco anos. A imponente loja de sapatos e acessórios, que se espalhava por uma área de 1 500 metros quadrados distribuídos em três andares, havia se reduzido a uma salinha com 10% do tamanho original.

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Bárbara correu os olhos pelas estantes onde costumavam ficar os pares de tamanho 34, mas logo percebeu que não havia a menor chance de encontrar um modelo para sua festa de formatura no curso de medicina, em novembro. Desistiu da compra e saiu frustrada. “Havia pouquíssima variedade, parecia uma butique qualquer”, afirma.  

Primeira rede de lojas desse ramo a surgir na capital, nos anos 80, e responsável pela produção anual de 350 000 peças, a Shoestock está fechando as portas. A redução da operação foi notória nos últimos meses. A marca encerrou a unidade da Vila Guilherme em julho, deu adeus a seu braço mineiro no BH Shopping em agosto e vendeu o derradeiro escarpim na loja da Vila Olímpia no último dia 14. Desde o início deste mês, quem tenta acessar o site da empresa dá com o nariz na tela. O único ponto de venda sobrevivente, em Moema, tentava queimar o resto do estoque na semana passada, oferecendo desconto de 30% no preço dos 250 calçados restantes.

Shoestock
A estudante Bárbara Silveira: decepção ao ver as prateleiras vazias (Foto: Fernando Moraes)

Nos tempos áureos, até 2011, as clientes dali disputavam mais de 15 000 itens nas prateleiras e encaravam filas de até meia hora no caixa. Resignados quanto ao futuro, os funcionários lamentavam o fim do período de aviso prévio, previsto para este domingo (27). Estima-se que haverá 140 demissões. “Era uma rede importante na cidade, e fiquei triste com esse cenário”, diz a estilista Gloria Coelho, que assinou duas coleções para a marca, em 2011 e 2012.

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Fontes do mercado dizem que o negócio registrava prejuízo havia pelo menos quatro anos. Mesmo um faturamento na casa dos 60 milhões de reais, número estimado de 2014, seria insuficiente para manter as contas no azul. O aluguel de 150 000 reais da megastore de 4 100 metros quadrados na Vila Guilherme ajudava a tornar o resultado deficitário. Nem os pontos de Moema e Vila Olímpia, que costumavam ficar cheios, conseguiram segurar as pontas.

A administração tentou driblar os altos custos operacionais com desenvolvimento de produtos e levou seus calçados para lojas multimarcas. A ideia, porém, não colou. O cenário econômico instável também potencializou as dificuldades. O setor amarga uma queda de 20% nas vendas desde o ano passado. “A taxa de crescimento em 2015 deve ser negativa”, diz Heitor Klein, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados. “O país vem perdendo espaço no mercado internacional.”  

Shoestock - Moema
A loja de Moema: saldão para queimar os últimos produtos (Foto: Reprodução)

Aberta em 1986, a Shoestock foi a primeira loja a apostar na Avenida Bem-Te-Vi, em Moema. Hoje, cerca de trinta butiques de diferentes estilos atuam na via. Até o estoque começar a minguar, a rede de sapatos era a sensação do pedaço e atraía clientes de várias regiões da capital com suas peças de última moda vendidas a preços acessíveis, entre 100 e 300 reais.

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Dono do negócio, o casal Marcia e Eduardo Cachielo possui vários imóveis na cidade e não tem pendências consideráveis no mercado (fora quarenta processos trabalhistas pelos cortes recentes). Também não há pedidos de falência registrados. Aos clientes, os funcionários informam que a dupla apenas decidiu sair da cidade para viver com os filhos no principado de Mônaco. Um endereço no famoso balneário europeu, inclusive, já consta no atual contrato social da Shoestock.

Procurados por VEJA SÃO PAULO, os proprietários negaram os pedidos de entrevista. Integrantes da equipe de marketing da empresa comunicaram à revista apenas que a marca está passando por uma “reformulação”, sem entrar em detalhes sobre a história.

Shoestock - quadro coomparativo
A queda nos últimos anos, segundo estimativas de mercado (Foto: Veja São Paulo)

Fonte: VEJA SÃO PAULO