Abastecimento

São Paulo sem água: as alternativas e soluções para enfrentar a crise

Especialistas comentam as principais apostas do governo para retardar a seca e a viabilidade de cada alternativa

Por: Nataly Costa - Atualizado em

Cantareira
Vista aérea da represa de Jaguarí, que faz parte do sistema Cantareira (Foto: Lucas Lacaz Ruiz/Folhapress)

Há exatos quatro anos, em janeiro de 2010, famílias que moram às margens das represas do então pouco conhecido Sistema Cantareira viviam uma drama. Com uma precipitação que marcava 485 milímetros, o dobro do esperado para aquela época do ano, alguns reservatórios transbordaram e deixaram doze cidades do interior de São Paulo em estado de alerta. O sistema operava com 99,5% de sua capacidade e, em nota publicada no site, a Sabesp comemorava: o abastecimento à população da megião metropolitana estava garantido por mais dois anos. 

O prognóstico se confirmou. Até o fim de 2012, as chuvas abundantes faziam do assunto água um problema pelo excesso, não pela falta. Em meados de 2013, porém, após um verão com chuvas tímidas, o nível do Sistema Cantareira cairia a menos da metade para nunca mais se recuperar. O ano de 2014 começou com os mananciais na casa dos 20%. O resto da história é conhecida e, hoje, 6 milhões de pessoas na Grande São Paulo dependem dos 5,7% de água remanescentes no Cantareira, considerando as duas cotas da reserva técnica, o chamado volume morto.  

VEJA SÃO PAULO listou quais são, a partir de agora, as principais alternativas propostas pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB) para sobreviver à crise. Especialistas ouvidos pela reportagem também comentaram as medidas. "O melhor prognóstico é que, com chuvas dentro ou acima da média, o Cantareira volte a níveis aceitáveis apenas daqui a cinco anos", diz Jefferson Nascimento de Oliveira, professor de Recursos Hídricos da Unesp Ilha Solteira. 

+ Preço do galão de água varia até 40% em São Paulo

Cantareira - Atibainha
Terra seca: chão rachado na represa Atibainha, em Nazaré Paulista (Foto: Nilton Cardin/Folhapress)

3ª cota do volume morto

O Sistema Cantareira já opera com suas reservas técnicas desde maio do ano passado. A segunda cota volume morto, usada desde outubro, deve chegar a zero no começo de abril caso o nível das chuvas não aumente. A terceira parte, que está no fundo da represa Atibaina e tem 41 bilhões de litros, é uma opção para dar sobrevida ao abastecimento na região metropolitana. 

A medida é viável?

A captação é possível, mas o governo corre o risco de, para retardar o colapso em São Paulo, adiantar a catástrofe no interior. "Essa água é a que está garantindo o abastecimento de lugares como Atibaia, Nazaré Paulista, Piracicaba. Se você traz para São Paulo, o impacto lá será enorme", explica o geólogo e professor de gestão ambiental da USP Pedro Côrtes. 

Quando poderá a ser aplicada?

A retirada da terceira cota do volume morto ainda depende de aprovação da Agência Nacional de Águas. De toda forma, é apenas um paliativo. Com ela, o Cantareira ganharia uma sobrevida até junho.

Cantareira - Atibainha
Terra seca: chão rachado na represa Atibainha, em Nazaré Paulista (Foto: Nilton Cardin/Folhapress)

Transposição do Rio Paraíba do Sul

O governador Geraldo Alckmin recebeu 830 milhões de reais do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), da presidência da República, para realizar a transposição da bacia do Rio Paraíba do Sul, que abastece 16 milhões de pessoas no Rio de Janeiro. Com a obra, cerca de 5 000 litros de água por segundo seriam trazidos do Rio Jaguari para a represa Atibainha, que faz parte do Sistema Cantareira. 

+ Proposto há um ano, rodízio de água pouparia 12,3% do Cantareira

A medida é viável?

A seca que atormenta os paulistas, no entanto, também afeta o Rio e o Paraíba do Sul vive sua pior seca - alguns reservatórios também já operam no volume morto. Então, apesar de autorizada e com dinheiro garantido, essa solução também depende de São Pedro para se concretizar.

Quando poderá a ser aplicada?

Mesmo que chova acima da média e água não seja um problema no Paraíba do Sul, as obras começam daqui a três meses e têm previsão de duração de um ano e meio. Ou seja: no melhor dos cenários, a transposição só favorecerá São Paulo no final de 2016. 

Represa Billings
Represa Billings, que compõe o Sistema Rio Grande (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)

Billings

Com uma capacidade de 1,2 bilhão de metros cúbicos - maior que a do que a Cantareira, que é de 990 milhões de metros cúbicos -, a Billings também é considerada uma alternativa para o abastecimento de água da Grande São Paulo. Atualmente, só uma parte da água é captada: é o Sistema Rio Grande, que opera com 74% e é o único que está recebendo chuvas em quantidade satisfatória (foram 229 milímetros em janeiro, quase o dobro da precipitação que caiu sobre o Cantareira). 

A medida é viavel?

O problema da Billings é a poluição, já que a represa recebe por dia 800 toneladas de esgoto. O governo estadual, porém, já anunciou que vai tratar a água e usá-la para turbinar o volume do Sistema Alto Tietê, que também segue o caminho da tragédia do Cantareira.

Quando poderá a ser aplicada?

O projeto, ainda em estágio inicial, não tem previsão de custo e de prazo. Seria necessário a construção de dutos para levar a água de uma sistema para o outro. 

Guarapiranga
Represa Guarapiranga, na Zona Sul de São Paulo (Foto: Fabricio Bomjardim/Brazil Photo Press/Folhapress)

Outros sistemas

A situação não é boa nos outros mananciais que poderiam servir de socorro ao Cantareira. O Alto Tietê abastece 3,5 milhões de moradores de São Paulo (especialmente a Zona Leste) e Região Metropolitana, operando com apenas 12,4% de sua capacidade - isso inclui os 39 milhões de litros do volume morto, utilizado desde dezembro. Além da falta de chuva, o sistema diminui consideravelmente os níveis de água desde o ano passado, quando a Sabesp migrou um milhão de pessoas do Cantareira para o Alto Tietê. 

O mesmo ocorreu com o Sistema Guarapiranga, que atende 4,9 milhões de moradores da Grande São Paulo - um milhão deles oriundos do Sistema Cantareira. Lá, as chuvas de janeiro foram providenciais: o nível do manancial cresceu de 40% para 48% em um mês.

A medida é viável?

Durante a época seca - de abril a outubro -, o Guarapiranga não daria conta de atender aos 6,2 milhões que hoje dependem do Cantareira. Especialistas consideram um risco sobrecarregar ainda mais esses sistemas. "Os nossos sistemas hoje operam muito próximos do limite, sem folga. Quando enfrentamos uma seca, ficamos vulneráveis. A verdade é que gastamos demais e entramos no cheque especial da água", resume Pedro Côrtes, da USP. 

Fonte: VEJA SÃO PAULO