Crônica

Corra, freguês, corra

Por: Ivan Angelo

Crônica Ivan Angelo - Ed. 2453
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Antigamente se chamava abatimento. No pequeno comércio de bairro, tinham direito a abatimento os fregueses fiéis, que muitas vezes nem precisavam pedir. Dizia o dono da venda: “É 11; pra você eu faço 10”. De maneira folgazã, os filhos dos comerciantes da vizinhança davam descontos para quem tinha irmã bonita: “Não precisa dos quebrados, cunhado”. Era um tempo de miudezas. O desconto, no tempo em que se chamava abatimento, era seletivo, relativo e afetivo, não se expressava em porcentagens.

Já no grande comércio do centro das cidades não havia privilégios de amizade, o desconto era democrático. Atendia pelos nomes populares de queima e liquidação. “Grande queima de inverno!” — gritavam os anúncios nos jornais. Queriam sempre que o freguês corresse (ainda não se chamava consumidor, era freguês mesmo), nada de pensar muito sobre a compra: “Corra! Só até sábado!”. Contavam-se piadas bobas pelas esquinas: “Corra! Liquidação de muletas! Corra!”. Oportunistas inventavam queimas de estoque “para a entrega do prédio”, e na semana seguinte a loja reabria no mesmo endereço.

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Havia as liquidações dos grandes magazines, nos aniversários, no fim do ano, nas mudanças de estação, e aí a coisa era séria e espetacular. Em São Paulo, rivalizavam-se Mesbla, Map pin, Pirani e outros nas ofertas que atraíam filas madrugadoras, engoliam páginas dos jornais, dominavam o rádio com jingles, expandiam-se pela incipiente televisão. Quando aqui cheguei, vindo da modesta Belo Horizonte dos anos 60, lembro-me de ouvir com gosto a musiquinha de melodia graciosa do Mappin, onde quer que houvesse um som: “Mappin, / venha correndo, Mappin, / chegou a hora, Mappin, / é a liquidação! / Mappin, / tem tudo aqui no Mappin, / muitos descontos, Mappin! / É a liquidação!”.

Ano após ano, a mesma coisa. As festas de preços dos magazines eram mega-acontecimentos na cidade, mas anunciadas sem grosseria, com jingles leves, locutores em tom civilizado. Procurava-se conquistar com simpatia, não no grito. As propagandas estampavam, sim, adjetivos grandiloquentes — “Liquidação monstro!” —, mas isso não fazia barulho.

Ah, e era tudo em português. Depois que o nosso povo, da classe média para cima, começou a fazer compras nas liquidações de Nova York, Miami e Orlando, a língua portuguesa ficou inexpressiva, sem mágica para convencer ou atrair o comprador de manha turística. Hoje em dia, o que faz tremer a passarinha, como diria Machado de Assis, é ver as palavras off, sale ou discount dominando uma vitrine, acompanhadas ou não de números porcentuais. Há pouco, importamos novo abracadabra: Black Friday. O povão não sabe bem o que é isso, mas já entendeu que tem desconto aí, e puxa o cartão de crédito.

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O lugar do desconto miúdo é a feira livre, das ruas, onde se encontram também a dúzia de 13 e o quilo bem pesado, formas não expressas de abatimento. A feira tem até a hora do desconto, anunciado no gogó, por volta do meio-dia: “Baixou! Baixou!” — é a gritaria. Mesmo antes, é possível negociar cada compra, e eis aí a vantagem sobre o supermercado: vale a pechincha.

Contam-me uma história de liquidação, picardia de torcedor. Que um fã de futebol entrou numa loja para comprar uma camiseta de clube. Viu uma da Itália, linda, 120 reais; do camisa 11 do Barcelona, bonita, 160 reais; da Alemanha, legal, 160 reais. Achou tudo caro e perguntou: “Não tem da seleção brasileira?”. O vendedor: “Ah, tem, muita. Lá no fundão, na liquidação”. O fã foi lá, escolheu uma, custava 19 reais. Deu uma nota de 20 e o vendedor fez cara de problema: “Ih, estou sem troco. Leva uma do Vasco para completar os 20 reais?”.

Fonte: VEJA SÃO PAULO