Futebol

Corinthians: torcida é a maior esperança para espantar má fase do clube

A fidelidade da torcida é agora a esperança para o Corinthians sair do fundo do poço

- Atualizado em

Com 31% da torcida paulista, segundo pesquisa realizada em março deste ano pelo instituto Datafolha, pode-se dizer que o Corinthians tem cerca de 12,5 milhões de torcedores apenas no estado de São Paulo. É um número assombroso, equivalente à soma das torcidas do São Paulo e do Palmeiras. Alguns são tão fanáticos que viajaram até Porto Alegre para ajudar o Timão, como a equipe se tornou conhecida – hoje mais pelo desenho de seu escudo do que pelo injustificado aumentativo –, a tentar fugir do rebaixamento para a série B do Campeonato Brasileiro de Futebol. Não conseguiram. Outros, a imensa maioria, enquadram-se na categoria de simpatizantes. Nem vão ao estádio, mas acompanham o clube com maior ou menor atenção. Muitos deles se orgulham das tradições de um time que é uma verdadeira instituição de São Paulo e, em 97 anos de existência, já foi 25 vezes campeão paulista, quatro vezes nacional e uma vez mundial (em 2000, embora os adversários não reconheçam). Oito de seus craques, entre eles o goleiro Gilmar dos Santos Neves e o meia Roberto Rivellino, ajudaram o Brasil a conquistar Copas do Mundo. Ao todo, dezenove jogadores corintianos já defenderam a seleção brasileira em Copas, de acordo com o jornalista Celso Unzelte, pes-quisador da história alvinegra.

As glórias do passado e sua fantástica torcida, justificadamente conhecida como Fiel, são os maiores patrimônios de um clube que tem um estádio modesto (com apenas 18 000 lugares, insuficientes para servir de palco de jogos oficiais) e um elenco medíocre. Pior de tudo, o Corinthians quase nunca, em praticamente um século de vida, contou com diretorias competentes para gerir sua grandeza – e nenhuma foi tão incompetente, com resultados tão desastrosos, como a que, depois de fazer um contrato com a MSI, em que vendeu o futebol da agremiação por dez anos a um grupo de investidores suspeitos, acabou por levá-lo ao precipício.

Foram muitas as agruras pelas quais o Timão já passou. Depois de vencer o Campeonato Paulista do quarto centenário da cidade, em 1954, padeceu 22 anos sem ganhar outro título estadual. Entre 1957 e 1968, viveu o chamado "tabu", em que não conseguiu vencer o Santos uma única vez. No início dos anos 60, tinha uma equipe tão ruim que ficou conhecida como "Faz-me rir", nome de uma música de sucesso na época. Em 1982, disputou a Taça de Prata, equivalente à segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Nada, porém, pode ser comparado à tragédia que se consumou no domingo 2, com a queda para a série B. Foi comovente ver, pela TV, a torcida cantar a música que acabou se tornando uma espécie de hino do rebaixamento: "Aqui tem um bando de louco / Louco por ti, Corinthians / Aqueles que acham que é pouco / Eu vivo por ti, Corinthians".

"Grandes times, como o Palmeiras e o Grêmio, já caíram. Mas nenhum tão importante quanto o Corinthians, que é o maior de todos", afirma o apresentador Milton Neves, torcedor assumido do Santos. "Teremos a série B mais badalada da história." Para os corintianos, isso não é consolo. Diz o publicitário Washington Olivetto, um dos mais conhecidos e provocativos torcedores do Corinthians: "Precisamos de uma diretoria que seja profissional, como a de uma grande empresa, e apaixo-nada, como é essa torcida. Se conseguir isso, em um ano o time voltará com mais 3 milhões de torcedores". Em 2008, é certo que os fiéis continuarão apoiando o mais novo integrante da Segundona. "Brincamos que, se o time for para o céu, queremos morrer para acompanhá-lo", diz Herbert Cesar Ferreira, presidente da Gaviões da Fiel, a maior das cinco torcidas organizadas do clube. A diferença é que, no lugar do Maracanã ou do Mineirão, cada vez que forem prestigiar o time os corintianos terão de ir a cidades como Marília, Barueri, Santo André e Bragança Paulista, transformados que foram na maior – talvez única – esperança de que em 2008 o Corinthians saia do buraco em que os cartolas o colocaram.

Fonte: VEJA SÃO PAULO