Futebol

Corinthians joga em Pacaembu (quase) sem testemunhas

A noite melancólica em que o time paulista jogou sem a Fiel, punida pela morte de um torcedor de 14 anos na Bolívia

Por: Felipe Zylbersztajn [com reportagem de Silas Colombo] - Atualizado em

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Os únicos corintianos presentes nas numeradas: o quarteto conseguiu o acesso ao campo graças a liminares na Justiça (Foto: Pier Vi Fonseca/Agif/Estadão Conteúdo)

A noite da última quarta (27) era dia de jogo do Corinthians no Pacaembu pela Copa Libertadores. Mas não parecia. A três horas do apito inicial, quando os portões costumam ser abertos em eventos desse porte, a Praça Charles Miller estava vazia. Uma medida preventiva da Conmebol, entidade responsável pelo torneio, determinava que a partida acontecesse com os portões fechados, em resposta à morte do garoto Kevin Espada, de 14 anos, uma semana antes, na Bolívia. Duas linhas de isolamento com grades de ferro foram postas na porta do estádio. Havia uma preocupação com as mais de 27 000 pessoas que tinham comprado o ingresso antecipadamente. Existia o boato de que protestos contra a decisão estavam sendo organizados pela internet. Falava-se em dezenas de milhares de torcedores reunidos na praça e ruas vizinhas. A tropa de choque da Polícia Militar chegou lá com 250 policiais. “Viemos manter e garantir a ordem pública”, dizia o tenente Marçal Ricardo Razuk, com o semblante fechado. A Guarda Civil Me tropolitana (GCM) levou cinquenta homens em catorze viaturas. De quatro caminhões da cavalaria, desceram quarenta policiais montados.

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Comemoração do primeiro gol: clima de partida de várzea (Foto: Mauro Horita/Agif/Folhapress)

Mas, quando a lua cheia apontou no céu sem nuvens, não havia mais que cinquenta pessoas com a camisa do Corinthians e era impossível achar algum flanelinha ou vendedor ambulante por lá. Até mesmo um torcedor do rival alvinegro daquela noite, o Millonarios, da Colombia, apareceu por ali. Daniel Charry, garçom colombiano de 25 anos, vestia o boné do time e a camisa da seleção de seu país. “Já sabia que não poderia entrar. Mas enfrentei 36 horas de ônibus e quis conhecer o estádio”, justificou.

A Banca Pacaembu, que tem acordo com a polícia para fechar as portas duas horas antes de partidas importantes, estava aberta. “É como se não houvesse jogo, entende?”, explicava Judite Rodrigues por trás do balcão. Ao lado de uma viatura, um policial da GCM filmava o ambiente com seu celular, enquanto o colega ao lado bocejava. As moradoras do bairro Helena Santos Neves e Luciléia Pinheiro, que costumam fazer caminhada naquele horário, resolveram dar uma olhada de perto. “A torcida do Corinthians faz com que mesmo quem não torce para ninguém, como a gente, goste de ver a festa”, dizia Helena.

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Comemoração do primeiro gol: clima de partida de várzea (Foto: Mauro Horita/Agif/Folhapress)

Faltando cerca de uma hora e meia para o jogo, uma tímida batucada começou  na praça. “Somos do Movimento Revolucionário Popular Corintiano”, informava o cartazista Marco Antônio de Paula Rodrigues, de chapéu panamá e com a sigla SCCP (Sport Club Corinthians Paulista) tatuada na barriga em letras garrafais. Aos poucos, outros torcedores foram chegando, e era Marco quem comandava a “massa” de aproximadamente 150 pessoas na Charles Miller.

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PMs de prontidão: parte dos policiais foi dispensada no intervalo da partida (Foto: Fernando Moraes)

A cinco minutos do começo da partida, todos se deram as mãos e rezaram. Depois disso, fizeram um minuto de silêncio para homenagear o garoto boliviano morto na semana anterior. O único ruído que podia ser ouvido na praça era o do motor do helicóptero que sobrevoava o estádio para a transmissão da TV. Foi possível até mesmo ouvir dali o apito inicial da partida, que disparou cânticos embalados pela batucada dos 150 torcedores na praça. “Eu consegui escutar os caras logo após o hino”, contaria o lateral corintiano Fábio Santos. “Mas entrar em campo sem o barulho da torcida foi horrível. É muito sem graça.”

Dentro do estádio, apenas quatro torcedores ocuparam as cadeiras numeradas, graças a liminares da Justiça. Ainda assim, o locutor oficial do estádio, Edson Tadeu da Silva, conhecido por Edson Sorriso, não deixou de fazer os anúncios costumeiros: “Torcedores! O Pacaembu é meu, é seu, é nosso”. Djaim Pretentato de Santana, garçom da área vip do estádio, quase não teve serviço. “Em um jogo normal sirvo quase 200 pessoas. Hoje atendi menos de trinta.” Do lado de fora, os poucos celulares com televisão digital viravam “telão” em rodinhas de torcedores. No fim do primeiro tempo, o tenente Alonso Wendel Ferreira da Silva ordenou que metade da cavalaria se retirasse. Não havia sentido em permanecer ali. “A gente imaginava que viessem aproximadamente 50.000 torcedores”, disse. “Foi o jogo mais tranquilo em que eu já trabalhei.”

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Placar eletrônico do estádio: mais jornalistas que torcedores (Foto: Rodrigo Coca/FotoArena/Estadão Conteúdo)

Quando o Corinthians já vencia por 2 a 0 e o jogo se encaminhava para o fim, o anúncio do público e da renda, obrigatório nesses eventos, representou um momento cômico. Os quatro pagantes renderam 870 reais — o ingresso para as numeradas custava 300 reais, mas, com o desconto do programa de sóciotorcedor, cada entrada saiu por 217,50 reais. A média de público do Corinthians no Pacaembu na Libertadores de 2012 foi de cerca de 30.000 pessoas.

O consultor de marketing esportivo Amir Somoggi estima que, em 2012, o Corinthians tenha faturado 320 milhões de reais — desse total, 38 milhões seriam provenientes da venda de ingressos. “Só a final contra o Boca Juniors rendeu 1,7 milhão líquido ao clube.” A perspectiva de passar a Libertadores de 2013 sem torcida representa um prejuízo considerável no horizonte. Em caráter provisório, a Conmebol proibiu a presença da Fiel em qualquer jogo do torneio deste ano, incluindo os marcados para fora de São Paulo. A entidade tem dois meses para publicar a sentença definitiva sobre o caso. Na quinta passada (28), a diretoria corintiana se mobilizava para enviar sua defesa, pedindo urgência na análise do caso para que a noite melancólica do Pacaembu não se repita.

 

ÀS MOSCAS

As outras partidas disputadas pelo clube com portões fechados

No dia 8 de maio de 2005, no Pacaembu, o Corinthians perdeu o clássico contra o São Paulo por 5 a 1. Torcedores brigaram com a polícia nas arquibancadas e ameaçaram jogadores. Punição: três jogos com os portões fechados pelo Campeonato Brasileiro. A pena foi reduzida para duas partidas sem torcida, que aconteceram em Mogi Mirim.

■ Corinthians 4 x 2 Flamengo

Data: 12/6/2005

■ Corinthians 0 x 1 Fluminense

Data: 26/6/2005

Fonte: VEJA SÃO PAULO