Fim da fila

Corinthians, 1977: “Eu estava lá”

Corintianos famosos e anônimos contam o que sentiram ao ver o Timão sair da fila na noite de 13 de outubro de 1977

Por: Ivan Azevedo - Atualizado em

Corinthians, 1977: “Eu estava lá” - 2163a
Em sentido horário, do alto à esq., José Ernani de Oliveira Abrahão, Mônica Toledo, Paulo Frossard e Carlos César Trausula (Foto: Mario Rodrigues)

José Ernani de Oliveira Abrahão

“Fui para o Morumbi na esperança de me livrar do falatório do meu chefe, um santista que vivia tirando onda. Tinha de aguentar calado. Lembro o instante em que o Dulcídio Wanderley Boschillia apita o final do jogo e a gente já pula para o gramado. Eu e um amigo de Curitiba fomos dos primeiros a entrar. Como sempre joguei no gol, meu apelido é Cabeção, em homenagem ao goleiro do Corinthians que foi campeão paulista em 1951. Por isso, fui direto às traves do Morumbi e tentei pegar um pedaço da rede. De repente, dois policiais vieram me prender, dizendo que não podia ter invadido o campo. Estavam quase me levando quando meu amigo perguntou onde estava a minha carteirinha da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Os PMs ficaram na dúvida se me prendiam ou não. Perguntei a eles se iriam fazer o mesmo com os outros 1 000 torcedores que tinham invadido junto comigo. Eles me liberaram e saímos rapidinho pelo portão principal.”

José Ernani de Oliveira Abrahão, advogado aposentado, tinha 44 anos

 

Mônica Toledo

“Em vez de me deixar no colégio, naquele dia minha mãe me levou à Igreja dos Enforcados, na Liberdade. Comprou vela, colocou no altar, rezou e pegou a bênção para duas folhas de arruda. Deu uma para mim e outra para o meu irmão. Então olhou bem para nós e disse: ‘Segurem firme até o fim do jogo, não larguem por nada’. Fomos ao Morumbi e ficamos em frente à bandeirinha de escanteio no lugar onde o Basílio comemorou o gol. Esse foi o momento mais marcante daquele dia. Não foi normal, nem poderia ser. Depois do grito de gol, o que se viu foi uma comoção enorme. Muitos choravam como se tivessem tomado uma injeção que tirasse a dor que havia muito os machucava. Minha mãe repetia, em tom de desabafo: ‘Acabou, ninguém mais ri de nós. Acabou!’. Ela se referia à música 'Faz-me Rir', que tocava nas rádios em ‘homenagem’ aos corintianos (sucesso cantado por Edith Veiga, em 1961, ano em que o Corinthians tinha uma equipe muito ruim). Outra coisa que a feria era entrar em comércios e ver a placa: ‘Fiado, só quando o Corinthians for campeão’. Meu pai estava extremamente emocionado, porque se lembrava do dia em que esteve no Pacaembu, em 1955. Depois daquele título, fez faculdade, se casou, teve filhos... Uma vida inteira, praticamente. Saindo do estádio, a primeira coisa que minha mãe fez foi comprar uma bandeira com os dizeres: ‘É Campeão’. Eu sempre pedia uma, mas a única que ela podia nos dar trazia a frase ‘Campeão ou não, és minha paixão’. Isso nos marcou demais. A mim, porque todos os meus amigos tinham uma bandeira de campeão. À minha mãe, porque não podia dar à filha o que ela queria. Mas, como ela mesmo disse: acabou!”

Mônica Toledo, advogada, tinha 9 anos

 

Paulo Frossard

“Tudo era a final naquele dia. Lembro-me da minha mãe me vestindo com a camisa do Corinthians no lugar do uniforme, do meu pai me pegando na escola com o carro repleto de bandeiras e do meu tio, que veio de Minas Gerais e estava ansioso. Na ida ao Morumbi, passamos em uma pizzaria na Lapa, e até os garçons usavam camisa do Corinthians. Todo mundo cantava o hino. Era coisa de filme. Partimos com a Caravan marrom cheia de bandeiras, como era costume na época, e a multidão alvinegra ia aumentando conforme chegávamos mais perto do estádio. Tudo foi marcante, mas os minutos após o gol do Basílio me levaram a ser o corintiano que sou. A cena que guardo é do meu pai desabafando comigo. Com os olhos cheios de lágrimas, me segurando pelos braços e olhando nos meus olhos, soltou: ‘Agora que você já viu o Corinthians ser campeão, posso morrer tranquilo, filho. É campeão! O Corinthians é campeão, filho!’ E me abraçava descarregando todo o peso daqueles anos de sofrimento. Para fechar a noite, quando já se aproximava das 3 da manhã, passamos na lanchonete Twelve, que ficava na Rua 12 de Outubro, na Lapa. Até hoje guardo o ‘Jornal da Tarde’ do dia seguinte com a manchete de uma data inesquecível.”

Paulo Frossard, publicitário, tinha 9 anos

 

Carlos César Trausula

“Como não morava na capital e, além de estudar, tinha de trabalhar, nunca conseguia acompanhar o Corinthians. Mas naquele dia meu próprio chefe, um ponte-pretano, me levou para o Morumbi. Foi minha primeira vez no jogo do Timão! Era muita gente junta para um garoto do interior. O melhor do dia foi que consegui guardar o ingresso. A muvuca na entrada do estádio era tanta que acabaram nem pegando o tíquete. O único problema é que ele tem o símbolo do São Paulo ao fundo. Mesmo assim, guardo com o maior amor.”

Carlos César Trausula, empresário, tinha 16 anos

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Fonte: VEJA SÃO PAULO