Futebol

Corinthians se torna modelo a ser imitado por outros grandes clubes

Conheça a receita do time que venceu o Mundial e se tornou referência no esporte

Por: Marília Ruiz - Atualizado em

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Tite: vitória nas mãos e muita comemoração (Foto: Rodrigo Coca/FotoArena)

Quem quiser rir aproveite para rir agora. Daqui para a frente, ninguém mais vai rir do Corinthians.”O cartola Andrés Sanchez fez essa declaração em dezembro de 2007, quando era presidente do clube, que acabava de amargar o maior vexame de sua história, o rebaixamento para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Hoje, suas palavras podem ser encaradas como profecia. Do fundo do poço, foi iniciada uma virada impressionante dentro e fora do campo. A épica recuperação culminou com a conquistado bicampeonato do Mundial de Clubes da Fifa no domingo passado (16). O triunfo sobre os ingleses do Chelsea, no Japão, foi comemorado nas ruas de São Paulo na chegada da delegação na última terça-feira, com o desfile num trio elétrico de heróis como o goleiro Cássio, eleito o grande destaque da decisão graças às fantásticas defesas que garantiram a vitória por 1 x 0.

+ Veja galeria com imagens da conquista do Corinthians no Japão

O renascimento alvinegro começou nos bastidores do Parque São Jorge, onde fica sua sede, na Zona Leste. Um passo fundamental na modernização foi dado em 2008, com a mudança no estatuto para impedir a reeleição do presidente. Acabava ali uma era de mandatos intermináveis, como os quinze anos de Alberto Dualib. Ele foi apeado do poder em 2007 após denúncias de corrupção e lavagem de dinheiro que envolveram a antiga parceira, a MSI. O escândalo não respingou em Andrés Sanchez, que ocupava o cargo de diretor de futebol do próprio Dualib até 2006 e lhe sucedeu no cargo. “O Corinthians tinha tudo para se reerguer, mas precisava de gente para pôr em prática a tarefa”, conta Sanchez. “Chamei os melhores profissionais para me ajudar.

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Bando de loucos no retorno do Japão: organização e marketing agressivo (Foto: André Lessa/Estadão Conteúdo)

”A área de marketing ficou aos cuidados do executivo Luiz Paulo Rosenberg, um dos homens fundamentais na acertada contratação do atacante Ronaldo Fenômeno, em 2008. Fora de forma, com um longo histórico de contusões e a imagem na lama, o jogador parecia uma aposta para láde arriscada. Mas contrariou a maior parte das previsões, atuando bem e liderando o elenco nas conquistas do Campeonato Paulista e da Copa do Brasil de 2009. De quebra, o novo ídolo valorizou a camisa doTimão, que passou a receber mais patrocínios e publicidade. De 2007 para cá, a receita nessas áreas aumentou de 19 milhões para 25 milhões de reais. A continuidadeda boa fase nos campos vem trazendo outros dividendos. Antes do Mundial no Japão, o Corinthians fechou um contrato para estampar o logo da Nossa Caixa no seu uniforme, o que vai lhe render 31 milhões de reais por ano até 2014. É o maior acordo do gênero no mundo da bola no país. Quase no mesmo período, a Nike, a fornecedora de material esportivo, renovou o acordo, dobrando a cota anual de15 milhões para 30 milhões de reais.

Dentro de campo, dois técnicos revelaram-se fundamentais. O gaúcho Mano Menezes, contratado no fim de 2007, dirigiu a equipe na campanha de volta à primeira divisão. Ele sairia dois anos e meio depois para comandar a seleção brasileira. Seu sucessor e conterrâneo, Tite, esteve por um fio no início de 2011, quando o Corinthians acabou eliminado na fase preliminar da Libertadores pela inexpressiva equipe colombiana do Tolima. “Se eutivesse sido mandado embora, acharia normal”, reconhece o treinador.

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Sanchez: talento para contornar crises (Foto: Tasso Marcelo/Estadão Conteúdo)

O presidente Sanchez bancou a permanência, em uma decisão que se mostraria bastante correta. “Isso não me deu forças apenas para continuar o trabalho, mas também teve um efeito positivo sobre todo o elenco”, afirma Tite. Mantido no cargo, ele conferiu o acabamento necessário a um time que se destaca pelo esforço coletivo, em que até os atacantes têm claras funções defensivas a cumprir quando a equipe não tem a posse da bola, num esquema tático com um padrão de organização pouco comum no futebol brasileiro. “Espero que os outros clubes brasileiros aprendam com o Corinthians a ser organizados, dentroe fora de campo”, escreveu o ex-jogador Tostão, um dos mais argutos comentaristas esportivos do país, em sua coluna na Folha de S.Paulo.

O técnico brilhou também por fazer mudanças providenciais entre os titulares. No gol, por exemplo, bancou o novato Cássio, barrando o antigo titular Júlio César, às vésperas dos confrontos decisivos da última Libertadores. No Mundial, entregou a camisa 9 ao peruano Guerrero, que acabaria marcando os dois gols da conquista ( oprimeiro na semifinal contra os egípcios do AlAhly). Como recompensa aos bons serviços prestados, Tite teve o contrato renovado recentemente até o final de 2013. Seu salário mensa lpulou de 350.000 para 450.000 reais, o que ocoloca na terceira posição do país entre os treinadores mais bem remunerados, atrás apenas deAbel, do Fluminense, com 750.000 reais, e de Muricy, do Santos, com 700.000 reais (impressionante o que ganham, não?).

Se o presente é glorioso, o futuro parece ainda muito mais promissor. As conquistas, além da euforia nas arquibancadas, criam um efeito em cascata positivo sobre o clube, em várias áreas. Segundo uma pesquisa divulgada recentemente pelo Instituto Datafolha, a torcida alvinegra foi uma das que mais cresceram nos últimos anos, dividindo atualmente o posto de maior do país com a do Flamengo, num empate de 16% entre as preferências dos aficionados. O bando de loucos, como a torcida chama a si mesma ao cantar durante os jogos, atravessou o planeta para tomar as dependências do estádio de Yokohama, no Japão.

Corinthians Campeão Mundial
Ronaldo: no jogo contrao Tolima (Foto: Daniel Augusto Jr./FotoArena/Folhapress)

Quem ficou por aqui, sintonizado na TV, contribuiu para gerar picos de audiência (os três maiores ibopes do ano da Globo foram alcançados em partidas da equipe). Em 2012, até setembro, o clube havia recebido131 milhões de reais em direitos de transmissão, um recorde nacional. Um dos fatores que influenciam na conta é o peso da camisa, em termos da percepção do mercado. De acordo com um trabalho da empresa de auditoria econsultoria BDO, o Corinthians tem a marca mais poderosa do futebol nacional, avaliada em1 bilhão de reais (o segundo do ranking é o Flamengo, com quase 800 milhões de reais) .

Outro fator a ser comemorado são as obras do estádio em Itaquera, com previsão de término para daqui a apenas mais um ano. Além de servir como uma nova fonte de renda, não só na bilheteria (a empresa que desejar batizá-lo po rum período de vinte anos precisará investir 500 milhões de reais), o campo — com capacidade para 68.000 espectadores — acabará com a antiga gozação dos rivais Santos, Palmeiras e São Paulo, que sempre fizeram chacota a respeitodo fato de o Corinthians ser dono de um estádio tão pequeno que era chamado de Fazendinha e onde, por isso mesmo, nunca jogava. “O clube atingiu uma posição alta e só deixará esse patama rse errar muito daqui para a frente”, analisa José Carlos Brunoro, especialista em gestão e marketing esportivos. Na verdade, como profetizou Andrés Sanchez em 2007, não dá mais para fazer piada. O Corinthians, afinal, agora está lá em cima. No topo do mundo.

O Salto Alvinegro

Arrecadação com direitos de transmissão:

2007: R$ 23 milhões

2012: R$ 131 milhões*

Receita com patrocínio e publicidade:

2007: R$ 19 milhões

2012*: R$ 25 milhões

Faturamento com bilheteria nos jogos em São Paulo:

2007: R$ 8 milhões

2012: R$ 31 milhões

*até setembro

Fonte: VEJA SÃO PAULO