Patrimônio

Centro esportivo no Ibirapuera sofre com abandono

Inaugurado em 1957, Conjunto Desportivo Constâncio Vaz Guimarães, que já foi um dos mais equipados da América Latina, tem pista desgastada e quadras malcuidadas

Por: Maria Paola de Salvo - Atualizado em

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Na pista de atletismo, a placa avisa: “Conjunto Desportivo Constâncio Vaz Guimarães, Centro de Excelência no Esporte”. Quem percorre os 95 000 metros quadrados do complexo, no entanto, dificilmente acredita no que acabou de ler. Inaugurado em 1957, o lugar, que já foi um dos mais equipados centros esportivos da América Latina, está em petição de miséria. Todas as seis piscinas — uma olímpica de 50 metros, quatro infantis e uma própria para saltos — estão vazias. Repletas de galhos e folhas, nem parecem ter abrigado aulas de natação, salto ornamental, polo aquático e nado sincronizado para 2 000 atletas, além de diversas competições. É a primeira vez desde 1978 que elas ficam sem água. As duas quadras poliesportivas viraram depósito de traves velhas. Nas tabelas de basquete, não há mais rede. Já as três quadras de tênis exibem desgaste no piso e não têm quase nenhuma sinalização.

No Estádio Ícaro de Castro Mello, mais conhecido como Estádio do Ibirapuera, o principal ponto de treinamento e de competições do atletismo brasileiro, a situação também é precária. Boa parte dos armários do vestiário feminino está retorcida e, no masculino, sobram vidraças quebradas. A arquibancada para 13 000 pessoas sofre com a pintura descascada e com a falta de cadeiras — entre as que restaram, várias estão quebradas. O placar não funciona mais. Materiais avariados e mato alto se acumulam em volta da pista de atletismo, que está desgastada e não vê reforma desde 2003. Segundo a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), a validade desse tipo de piso é de cinco anos, e o do Ibirapuera já não tem mais condições de abrigar competições.

Única em São Paulo, a pista é uma das quatro do país certificadas pela Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF). “O local está em péssimas condições”, afirma o superintendente técnico da CBAt, Martinho dos Santos. “Tivemos de ceder ao treinador da saltadora Maurren Maggi, campeã olímpica, 45 metros de piso novo, que foi colocado sobre o velho no corredor de saltos.” De acordo com o presidente da Federação Paulista de Atletismo, José Antonio Fernandes, o desgaste pode causar lesões nos esportistas.

Se não bastassem os problemas estruturais, atletas e corredores alegam que a diretoria os impede de treinar no local. Entre os expulsos está Fabiana Murer, campeã mundial de salto com vara neste ano. “Já fomos barrados ali diversas vezes sob a justificativa de que o complexo seria fechado para uma reforma que nunca acontece”, afirma o técnico de Fabiana, Elson Miranda, da equipe BM&FBovespa, a maior do país. “Tivemos de ir para São Caetano do Sul, que não oferece a mesma infraestrutura.”

Cerca de outros 100 corredores de rua também teriam sido impedidos de usar o espaço. “Migramos para a Praça da Paz, no Parque do Ibirapuera, mas o terreno é tão irregular que uma senhora caiu e se machucou”, conta o corredor Wanderlei de Oliveira, da equipe Run For Life. “Corro aqui desde 1991 e nunca havia passado por isso”, diz Valdomiro Cocato, o Dodô, 69 anos, da Associação Atlética Veteranos. Algumas federações também foram convidadas a se retirar. A de tênis já saiu e a de esportes aquáticos deve deixar o local em breve. Entre alguns esportistas que ainda utilizam a pista — a maior parte ligada a projetos do governo do estado — o clima é de medo. Quase ninguém se atreve a reclamar da situação, temendo que tudo seja fechado de vez.

Segundo o diretor do complexo, Eduardo Anastasi, a pista foi parcialmente interditada e as federações tiveram de ser retiradas dali para o início de uma reforma geral em todo o complexo. Orçada em 33 milhões de reais, ela deve durar um ano e quatro meses. Apesar de uma faixa anunciar o começo das obras para agosto de 2009, até agora nada foi feito. “Solicito as melhorias há quase três anos, mas tivemos atrasos nas licitações”, justifica Anastasi. “Tenho 10 milhões de reais em caixa, mas não posso usar, porque preciso aguardar a autorização para a reforma.”

No último dia 29, porém, a Secretaria de Esporte, Lazer e Turismo inaugurou uma academia de 700 metros quadrados embaixo do Ginásio do Ibirapuera. A reformulação consumiu 500 000 reais na aquisição de 75 equipamentos. Sobre os atletas barrados, Anastasi justifica a medida dizendo que eles eram ligados a clubes privados. “Alguns cobravam pelos treinos na pista, e não podemos permitir que usem nossas instalações de forma particular.”

Em nota, a Secretaria de Esporte, Lazer e Turismo informa “que as instalações do conjunto têm plenas condições de atender atletas de todo o Brasil e que em nenhum momento o espaço deixou de abrigar competições esportivas ou esportistas foram impedidos de treinar em suas dependências”. Promete ainda que as obras vão ser iniciadas até o fim deste mês. Isso, claro, se não houver recursos na Justiça contra a licitação.

Fonte: VEJA SÃO PAULO